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O MAIOR SOLITÁRIO

por: Roberto Lazaro Silveira

“O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.” – Vinícius de Moraes.

 

Toda violência é psicológica na origem e no destino

por: Roberto Lazaro Silveira

“Quando se fala de violência, geralmente se faz alusão à violência física, por ser esta a expressão mais evidente da agressão corporal. Outras formas como a violência econômica, racial, religiosa, sexual, etc., em algumas ocasiões podem atuar ocultando seu caráter, desembocando, definitivamente, no avacalhamento da intenção e a liberdade humanas. Quando estas se evidenciam, se exercem também por coação física” (Silo, Obras Completas, Volume II, “Dicionário do Novo Humanismo”).

Violência é uma só que podemos classificar e partem do que podemos chamar de aparelho psiquico. A violência é uma expressão arquetípica, ou seja, se repete desde os primórdios até o presente dia assim como pode ser reconhecida mesmo quando vista entre pessoas de um idioma diferente do nosso.

Pense nisto: Um japonês após vir o filho derramando café em sua roupa dá-lhe uma bronca. Através das expressões fáciais, tonalidade da voz e sopapos, sabemos que está havendo uma certa violência, mesmo não entendendo nadinha do idioma que estão falando.

E ficamos pensando, às vezes: coitadinho do japinha! com um pai desses irá crescer revoltado, ou melhor, vai ficar traumatizado – de psicólogo e louco todo mundo tem um pouco! Vamos imaginar que o pai do japinha está repetindo o que o avô do japinha fazia. Então ele aprendeu assim e estes padrões se repetem de geração a geração.

Então a violência, ilustrada acima, pode ter partido de um completo psicológico para gerar outro complexo psicológico no sentido entrópico da coisa. Violência psicológica na origem e no destino.

Tanto as agressões físicas quanto verbais foram desencadeadas por nosso psiquismo seja com “forças” do inconsciente, pré-consciente ou consciente e terão efeitos psicológicos – as feridas cicatrizam, mas, o medo agora é de água fria também, ou seja, quem nunca ouviu que gato escaldado com água quente tem medo de água fria… então agora que leu se não havia ouvido, não me venha falar em violência física apenas, pois, até um animal dito irracional é afetado em seu “psicológico”.

E violência gera violência quem avisa amigo é! Mas tem aquela violência psicológica mesmo!… e tal… Impossível, pois, nenhuma violência é apenas psicológica. Podemos classificá-la não é? Dizem que quando os pais dizem que os filhos não prestam e que são vagabundos ou ameaçam matá-los é violência psicológica. Está certo porque como vimos acima toda violência é psicológica também.

Então podemos notar que essa violência partiu do “psicológico” (o pai está repetindo um padrão de comportamento, mas, agora as leis estão mais rígidas e a punição assim como a informação podem melhorar as coisas) dos pais e acertou o psicológico do filho utilizando as palavras como meio, logo, vamos dizer que é uma violência verbal ao “psicológico” da pessoa.

Vamos lembrar que psicológico é derivado de psiquê, que por sua vez significa alma, sendo o local onde recebemos as mais variadas formas de violência contida em outras almas ou até mesmo em seres desalmados, como é dito aos mais violêntos…

Logo podemos notar que as classificações para violência servem apenas para indicar o meio pelo qual o “psicológico” foi afetado: racismo, economicismo, machismo, feminismo, religiosismo, partidarismo, sexualismo… Que geram: Violência Escolar; Violência Doméstica; Violência no Trânsito; Violência contra Crianças… Que transferem-se de um psiquismo para outro através das balas, espadas, palavrões, ameaças, assédio, pedradas… No final das contas a violência fica gravada na alma (no “psicológico” da pessoa).


“(…) A violência penetrou em todos os aspectos da vida: se manifesta constante e cotidianamente na economia (exploração do homem pelo homem, coação do Estado, dependência material, discriminação do trabalho da mulher, trabalho infantil, imposições injustas, etc.), na política (o domínio de um ou vários partidos, o poder do chefe, o totalitarismo, a exclusão dos cidadãos na tomada de decisões, a guerra, a revolução, a luta armada pelo poder, etc.), na ideologia (implantação de critérios oficiais, proibição do livre pensamento, subordinação dos meios de comunicação, manipulação da opinião pública, propaganda de conceitos de fundo violento e discriminador que resultam cômodos à elite governante, etc.), na religião (submissão dos interesses do indivíduo aos requerimentos clericais, controle severo do pensamento, proibição de outras crenças e perseguição de hereges), na família (exploração da mulher, ditado sobre os filhos, etc.), no ensino (autoritarismos de professores, castigos corporais, proibição de programas livres de ensino, etc.), no exército (voluntarismo de chefes, obediência irreflexiva de soldados, castigos, etc.), na cultura (censura, exclusão de correntes inovadoras, proibição de editar obras, ditados da burocracia, etc.,)(…).”((Silo, Obras Completas, Volume II, “Dicionário do Novo Humanismo”).

 

Janelas Modernas: Fofoqueiras Windows adotam as Janelas com vista para o Facebook, Twitter, etc.

por: Roberto Lazaro Silveira

Então vamos para o lado bibliográfico da coisa: Segundo Carlos Byingto, psiquiátra Junguiano, criador da Psicologia Byingtoniana que apresenta a Sombra e Persona Patológicas dentre outros conceitos modificados, a fofoca pode não ser boa coisa! “Os símbolos se expressam de forma inadequada por estarem indiscriminados. A fofoca, como meio de comunicação marginal e semi-sigilosa (segredo é o que se conta para uma pessoa de cada vez), é ideal para a comunicação sombria”.

Explicando a citação acima para os não Psicólogos ou que não conhecem a psicologia Junguiana e quanto menos Byitoniana: Os símbolos interagem com nossa realidade inconsciente, sendo assim possuem a parte profana, sombria no sentido de patológica o joio no meio do trigo.

Abaixo um trecho do capítulo que o Brilhante Carlos Byington dedicou à fofoca. Este trecho foi retirado do livro Estruturas da Personalidade – Persona e Sombra que ganhei do Gigante Carlos Byington, autografado pelo mesmo cara a cara comigo! Convido então para a leitura do trecho abaixo com pequenos comentários meus entre parênteses, boa leitura.

A fofoca, às vezes, contamina a atmosfera social com tanta sombra (patológica), que esta pode subitamente estourar em escândalos e invadir a consciência coleliva através da difamação e da calúnia.

A fofoca simboliza muito bem as vantagens e desvantagens da comunicação social. Por um lado, se não fosse por ela, muitos desses símbolos não seriam expressos e a psique individual e coletiva ficareia sem uma carga preciosa de energia diferenciadora.

Nesse sentido, a fofoca é um verdadeiro antídoto higiênico da persona defensiva e posuda, que varre o lixo para debaixo do tapete e arrisca apodrecer o edifício (a igreja, o colégio, o trabalho).

Só que, a fofoca, ao invés de levantar o tapete e varrer a sala, liga o ventilador com a ponta do tapeta levantada, enquanto a família está dormindo. No dia seguinte…

O fofoqueiro é, de um modo geral, um covarde e um manipulador. Quando fofocamos subtraímos ao ego a dignidade do relacionamento humano, pois a franqueza é uma das funções simbólicas mais corajosas e pujantes.

Saímos da luz do sol para conversarmos ao abrigo fedorento dos esgotos, que sujeitam o símbolo da mensagem, por mais pujante e necessária que seja para a vida psíquica, a veicular toda sordidez e imundície de que é capaz a alma.

Todos fofocamos pelo simples fato que todos temos sombra e os símbolos da sombra se expressam à sua maneira.

O oposto da fofoca é a comunicação direta, franca e corajosa que elabora e humaniza os símbolos, pois permite ao outro se colocar e elaborar na discriminação. Quanto isso acontece, a sombra se torna luz. Pena é que tantos não aquentam dar ou receber a verdade e, por isso, favorecem a continuação da fofoca e a propagação da sombra (patológica).

Simbolicamente, a fofoca se enraíza no inconsciente coletivo, na sombra do arquétipo do intermediador, tão bem expresso por Hermes, o guia das almas e deus do comércio (das transações) e por Exu no candomblé ioruba-nagô. Trata-se aqui da imagem mitológica da comunicação. Hermes é o mensageiro de Zeus; Exu, orixá das encruzilhadas, abre os trabalhos de comunicação e culto aos orixás.

Ora, o fenômeno da comunicação diz respeito à própria essência da elaboração simbólica que transforma energia inconsciente em consciente. Simbolicamente, podemos falar na transformação psicológica da escuridão na luz, equivalente ao crescimento da consciência individual e coletiva.

Mas, para isso, há que se mergulhar na escuridão, lá mesmo onde floresce o lótus e fedem os esgotos. Isso explica por que os deuses intermediadores ligam-se na marginalidade com o arquétipo do trickster, do bufão. Hermes começa a roubar logo depois de nascer. Exu, frustrado, é um aprontador pior que o saci endiabrado.
A sombra do intermediador é proporcional ao seu poder.

Ao indiscriminar sua função, Hermes pode soltar almas penadas entre nós ao invés de conduzi-las ao outro mundo. É o que faz o fofoqueiro muitas vezes, fato expresso, em grau extremo na magia negra, pelos feiticeiros que invocam as almas nos cemitérios para fazer o mal contra uma pessoa viva.

Cristo é também expressão do arquétipo de intermediador no dinamismo de alteridade, cuja sombra comentaremos adiante.

A sombra da confissão cristã desrespeitada pode se tornar diz-que-diz-que e fofoca. O mesmo acontece com o analista que abre o segredo de seus clientes. Colhido pela sombra, o sacerdote intermediador entre os abismos da alma a consciência se transforma num perigoso e desprezível alcoviteiro e fofoqueiro. Para comprar e/ou baixar grátis alguns textos do Carlos Byington visite o site: http://www.carlosbyington.com.br/home.html

 

O Sagrado e o Profano Tocam no Mesmo Piano

por: Roberto Lazaro Silveira

Quando o assunto é sagrado ou profano? Para politicamente corretos, não se discute o que é sagrado, mas, também não discute-se sobre política! Sendo assim vou recomendar para vocês meus amigos internautas, a leitura de um texto de Mircea Elíade que foi extraído na íntegra da página 15 (quinze) de seu livo: o Sagrado e o Profano, boa leitura!

“Pode se medir o precipício que separa as duas modalidades de experiência – sagrada e profana – lendo se as descrições concernentes ao espaço sagrado e à construção ritual da morada humana, ou às diversas experiências religiosas do Tempo, ou às relações do homem religioso com a Natureza e o mundo dos utensílios, ou à consagração da própria vida humana, à sacralidade de que podem ser carregadas suas funções vitais (alimentação, sexualidade, trabalho etc).

Bastará lembrar no que se tornaram, para o homem moderno e a religioso, a cidade ou a casa, a Natureza, os utensílios ou o trabalho, para perceber claramente tudo o que o distingue de uni homem pertencente às sociedades arcaicas ou mesmo de uni camponês da Europa cristã. Para a consciência moderna, um ato fisiológico – a alimentação, a sexualidade etc. – não é, em suma, mais do que uni fenômeno orgânico, qualquer que seja o número de tabus que ainda o envolva (que impõe, por exemplo, certas regras para “comer convenientemente” ou que interdiz um comportamento sexual que a moral social reprova).

Mas para o “primitivo” um tal ato nunca é simplesmente fisiológico; é, ou pode tornar-se, uni “sacramento”, quer dizer, uma comunhão com o sagrado. O leitor não tardará a dar-se conta de que o sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no Mundo, duas situações existenciais assumidas pelo homem ao longo da sua história. Esses modos de ser no Mundo não interessam unicamente à história das religiões ou à sociologia, não constituem apenas o objeto de estudos históricos, sociológicos, etnológicos.

Em última instância, os modos de ser sagrado e profano dependem das diferentes posições que o homem conquistou no Cosmos e, conseqüentemente, interessam não só ao filósofo mas também a todo investigador desejoso de conhecer as dimensões possíveis da existência humana. Por essa razão, o autor deste pequeno livro, embora um historiador das religiões, propõe se não escrever unicamente da perspectiva da ciência que cultiva.

O homem das sociedades tradicionais é, por assim dizer, um homo religiosus, mas seu comportamento enquadra-se no comportamento geral do homem e, por conseguinte, interessa à antropologia filosófica, à fenomenologia, à psicologia. A fim de sublinhar melhor as notas específicas da existência num mundo suscetível de tornar-se sagrado, não hesitaremos em citar exemplos escolhidos entre um grande número de religiões, pertencentes a idades e culturas diferentes.

Nada pode substituir o exemplo, o fato concreto. Seria vão discorrer acerca da estrutura do espaço sagrado sem mostrar, com exemplos precisos, como se constrói um tal espaço e por que é que tal espaço se torna qualitativamente diferente do espaço profano que o cerca. Tomaremos esses exemplos entre mesopotâmicos, indianos, chineses, kwakiutls e outras populações primitivas.

Da perspectiva histórico cultural, uma tal justaposição de fatos religiosos, pertencentes a povos tão distantes no tempo e no espaço, não deixa de ser um tanto perigosa, pois há sempre o risco de se recair nos erros do século XIX e, principalmente, de se acreditar, como Tvlor ou Frazer, numa reação uniforme do espírito humano diante dos fenômenos naturais. Ora, os progressos da etnologia cultural e da história das religiões mostraram que nem sempre isso ocorre, que as “reações do homem diante da Natureza” são condicionadas muitas vezes pela cultura – portanto, em última instância, pela história.

Mas, para o nosso propósito, é mais importante salientar as notas específicas cia experiência religiosa do que mostrar suas múltiplas variações e as diferenças ocasionadas pela história. É um pouco como se, a fim de captarmos melhor o fenômeno poético, apelássemos para uma massa de exemplos heterogêneos, citando, ao lado de Homero, Virgílio ou Dante, poemas hindus, chineses ou mexicanos – ou seja, tomando em conta não só poéticas historicamente solidárias (Homero, Virgílio, Dante) mas também algumas criações baseadas em outras estéticas. Do ponto de vista da história da literatura, tais justaposições são duvidosas – mas são válidas se temos em vista a descrição do fenômeno poético como tal, se nos propomos mostrar a diferença essencial entre a linguagem poética e a linguagem utilitária cotidiana.”

Fonte: O Sagrado e o Profano de Mircea Eliade.

 

Identifique o Gyodai

por: Roberto Lazaro Silveira

Gyodai era um personagem inimigo dos Changemans, seriado apresentado em 1988 pela rede Manchete. Os Changemans era composto por cinco integrantes do exército dos Defensores da Terra banhados pela Força Terrestre (Earth Force) e adquirem cada um os poderes de um densetsu-ju (animal lendário): Dragão (Change Dragon), Grifo (Change Griphon), Pégaso (Change Pegasus), Sereia (Change Mermaid) e Fênix (Change Phoenix).

Suas missões era lutar contra monstros espaciais. Então quando venciam o mostro, entrava em cena o famoso Gyodai que tornava gigantes os monstros vencidos.

Este personagem foi escolhido para ilustrar alguns casos clínicos que tenho tratado e estão relacionados aos conflitos que temos com outros no dia a dia e depois levamos a pessoa para casa em nossa mente e ficamos imaginando algumas possíveis respostas ou até mesmos agressões físicas e premeditando um possível reencontro para vingança.

Talvez nem veremos mais a pessoa com quem tivemos o contratempo que durou apenas minutos e ampliamos para dias meses… Então inclua este conhecimento tornando-o capaz de gerar um autoconhecimento sobre ti mesmo. Procure identificar o Gyodai dentro de você e conhecer as razões que o fazem aparecer, desta maneira será possível vencê-lo. Ja ouviu falar em fazer tempestade em copo d’agua ou tornar um probleminha um problemão? ….. são complexos identificáveis ao redor do mesmo núcleo arquetípico. Ajuda muito à derrotar o Gyodai quando assumimos a seguinte linha de pensamento: “Eu tenho valor, sou único no mundo….” Ninguém é inferior ou superior em tudo ou nada. Pense nisto!

 

Mandalas

por: Roberto Lazaro Silveira

Partindo da origem na palavra tibetana dkyil-‘khor que significa “aquilo que circunda um centro.” Um “centro” é, aqui, um significado e “aquilo que o circunda” – mandala – é um símbolo redondo que representa o significado. No entanto, nem todas as mandalas são desenvolvidas circularmente.

As Mandalas fazem parte de rituais mágicos de diversas culturas ao redor do mundo: dos induistas, dos islamicos, dos budistas, dos cristãos (nas rosetas das catedrais), e das práticas xamânicas de diversas culturas ancestrais.

São imagens ao mesmo tempo sintéticas e dinâmicas, que tendem a superar as oposições do múltiplo e do uno, do espaço-temporal ao intemporal e extra-espacial. As mandalas têm o poder de reorganizar naturalmente as energias astrais que estão ao seu redor pelo padrão simétrico e harmônico de suas formas e cores (geometria sagrada).

Estes poderosos instrumentos mágicos são utilizados na harmonização e cura de energias confusas em ambientes e também para meditação. Mandalas são também representações da psique, cuja essência nos é desconhecida.

São símbolos do nosso processo de individuação e do Self. As Mandalas inspiram serenidade e ao sentimento de que a vida reencontrou seu sentido e sua ordem.

Há muitos tipos de mandalas, usadas para várias finalidades nas práticas budistas do sutra e do tantra. Como exemplo podemos citar mandalas oferecidas em oferendas para guias espirituais equivalentes às oferendas das religiões Africanas, ou seja, com mesmo objetivo. Existem mandalas de empoderamento etc…

Os empoderamentos são crenças características de peculiares à algumas seitas ou correntes filosóficas. Ex: Três empoderamentos encontrados apenas no tantra anuttarayoga.

O empoderamento secreto é oriundo de uma mandala simbólica redonda de bodhichitta relativa (kun-rdzob byang-sems-kyi dkyil-‘khor): Está relacionado às gotas, geralmente de yogurte e chá, que servem como a base para rotular as gotas de energia sutis de bodhichitta branca e vermelha e que são dadas a saborear.

O empoderamento da consciência discriminadora profunda é proveniente de uma mandala simbólica redonda de um ventre ou útero (bha-ga’i dkyil-‘khor)

O empoderamento da palavra, é proporcionado por uma mandala simbólica redonda de bodhichitta mais profunda (don-dam byang-sems-kyi dkyil-‘khor): Esta mandala diz respeito à compreensão mais profunda da vacuidade.

O empoderamento da consciência discriminadora profunda (Kalachakra): é promovido por uma mandala simbólica redonda de bodhichitta relativa – as gotas de energia sutis que descem dentro do corpo – no lugar da mandala de um ventre ou útero como em outros sistemas anuttarayoga.

O quarto, ou o empoderamento da palavra: é conferido pela mandala simbólica redonda de bodhichitta mais profunda, como em outros sistemas anuttarayoga.

Para os leitores dotados de conhecimentos sobre arquétipos é interessante notar como estes complexos arquetípos são nutridos pelo mesmo núcleo que nutre alguns Dons do Espírito Santo, crença do Cristianismo: Discernimento de espírito – consciência discriminadora profunda, etc. No Cristianismo estes “empoderamentos” são dados de forma gratuíta conforme a graça e propósito de Deus na vida de cada indivíduo; no espiritismo é um tipo de mediunidade e assim repete-se desde os primórdios…

 

COMO LIVRAR-SE DAS DÍVIDAS – O ETERNO RETORNO

por: Roberto Lazaro Silveira

Eclesiastes: O nome vem da tradução grega do título – Qohelet – e quer dizer “aquele que reúne”. Ecclesia, a reunião, o grupo, é a palavra grega que vai originar a nossa “igreja”. Uma boa tradução menos literal para Qohelet é professor.

No início do livro, o professor se apresenta como filho de Davi e rei de Jerusalém. Apenas Salomão corresponde a esta descrição. Uma das interpretações é de que o Professor é um descendente de Davi; outra, que ele simplesmente atribui o texto a Salomão para ganhar credibilidade.

Ele conta que teve muitas mulheres, mas aí percebeu que isto não traz nada; conta que teve muito dinheiro, mas sobrou apenas o vazio; que trabalhou duro e também isto pouco significou. Que estudou e fez-se sábio, mas que continuava o mesmo. Tudo o que possamos fazer já foi feito, “Não há nada de novo sob o Sol”.

Ouroboros, oroboro ou ainda uróboro: Dentre as várias tentativas de explicar o símbolo existe uma complementar às percepções contidas no livro Eclesiastes e que reforça a condição arquetípica do tema, veja: Segundo o “Dictionnaire des symboles” o ouroboros simboliza o ciclo da evolução voltando-se sobre si mesmo. O símbolo contém as idéias de movimento, continuidade, auto fecundação e, em consequência, eterno retorno.

Eterno retorno: é um conceito filosófico formulado por Friedrich Nietzsche. Em alemão o termo é Ewige Wiederkunft. Uma síntese dessa teoria é encontrada em A Gaia Ciência, leia abaixo:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.

A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e arquétipo?”

Como utilizar estes conceitos para solucionar os nossos problemas sem medo do retorno? Destruindo os ciclos de repetição: encontrar e destruir o anel – representação do ciclo fechado. O encontro com o anel torna possível sua destruição e desta forma adentrar em um novo ciclo menos prejudicial à nossa vontade uma vez sabido que somente podemos romper com uma realidade encarando outra!

Vejamos o caso de Rock: Queixando-se de insônia por causa de dívidas.

Durante algumas sessões pude notar que quando Rock  recebia seu salário, antes mesmo de pagar as contas, já havia gasto toda a grana com coisas supérfluas e no mês seguinte o ciclo repetia-se agravando a situação.

Antes de decidir resolver o problema de forma efetiva procurou um psiquiatra que receitou alguns remédios para a insônia, logo, tratando apenas dos sintomas o resultado foi a criação de um novo ciclo: A dependência de psicotrópicos. Reforçando também o primeiro ciclo que agora conta com o preço dos remédios – que recheiam os cofres da indústria farmacêutica sem nunca ter proporcionado uma unica cura. Clique aqui para receber de graça em sua residência o vídeo “Psiquiatria uma indústria de morte“.

Agora buscando o auto-conhecimento através das sessões psicoterapêuticas, Rock conseguiu encontrar o anel, ou seja, identificou como gerava novas contas sem ter pago as anteriores e agora detinha o anel e podia quebrá-lo – fruto do auto-conhecimento obtido nas sessões em parceria com o psicólogo psicoterapêuta.

Para obter este auto-conhecimento Rock encarou momentos difíceis durante a terapia que teve como objetivo demonstrar sua oralidade (condição de compensação para as frustrações ocorridas na construção de seu caráter) que estará presente durante toda sua vida, pois, é uma estrutura de personalidade predisposta aos excessos como defesa.

Rock estabeleceu uma meta: pagar as contas antigas sem gerar novas contas: logo que percebia o pagamento em seu notebook acessando o site do banco, Rock recolhia os boletos mais antigos de sua gaveta e pagava todos eles até 80% do salário e notava que com os outros 20% restantes dava para passar o mês, pois, era parte de suas metas não dar entrada em algo supérfluo novo que fortaleceria o ciclo anterior impedindo de quebrá-lo.

Quanto ao ciclo gerado em sua primeira tentativa de livrar-se das dívidas: o uso de psicotrópicos, Rock foi orientado a trabalhar a respiração através de exercícios de bioenergética ou Terapia Bioenergética Corporal. Antes de dormir ao invés de tomar os psicotrópicos deveria respirar profundamente: inspirar o ar utilizando-se do músculo diafragma e toda extensão do tórax e expirá-lo vagarosamente durante algumas repetições.

Ao final de alguns meses Rock havia terminado de pagar todas as dívidas e agora além de “dormir como uma pedra” encarava novos ciclos de vida menos prejudiciais à sua saúde. Livrou-se do ciclo das dívidas e dos psicotrópicos; Encontra-se no ciclo de compras somente à vista e também no ciclo da vigília, pois, agora sabe que sua estrutura de personalidade tende à traí-lo a qualquer momento.

Você é capaz de lembrar-se da história do “Senhor dos Anéis”?: “Mas aquele não é um anel comum, pois pode restaurar o poder de Sauron, o Sombrio Senhor de Mordor, e conseqüentemente lançar a Terra Média em escravidão. Para evitar isso, Frodo deve devolver o anel ao lugar onde foi forjado e assim destruí-lo.”

Mitanálises… Devolver o anel ao lugar onde foi forjado: No caso de Rock o anel foi forjado… F I M!

 

Afrodite

por: Roberto Lazaro Silveira

Na mitologia grega Afrodite – Αφροδίτη – era a deusa do amor, da beleza corporal e do sexo. Para os gregos, ela tinha uma forte influência no desenvolvimento e prazer sexual das pessoas. Era considerada também a deusa protetora das prostitutas na Grécia Antiga. Foi cultuada nas cidades de Esparta, Atenas e Corinto.

Nascimento e relacionamentos

De acordo com a mitologia, Afrodite nasceu na ilha de Chipre. Filha de Zeus (deus dos deuses) e Dione (deusa das ninfas), casou-se com Hefesto (deus do fogo). Porém, em função de suas vontades e desejos, possuiu vários amantes (homens mortais e outros deuses). Chegou a ter um filho, Enéias (importante herói da Guerra de Tróia) com o amante Anquises.

Principais filhos de Afrodite:

– Com Hermes (deus mensageiro) teve o filho Hermafrodito.
– Com Ares (deus da guerra) teve os filhos Eros (deus da paixão e do amor) e Anteros (deus da ordem).
– Com Apolo (deus da luz, da cura e das doenças) teve o filho Himeneu (deus do casamento).
– Com Dionísio (deus do prazer, das festas e do vinho) teve o filho Príapo (deus da fertilidade).

Na mitologia romana, Afrodite era chamada de Vênus.

Esta deusa inspirou vários artistas (pintores e escultores), principalmente, na época do Renascimento Cultural. Uma das obras mais conhecidas é “O nascimento de Vênus” do pintor renascentista italiano Sandro Botticelli (figura no topo do artigo).

Acima uma manifestação de Afrodite. Observe que “transmite o recado”, pois, como não há nada de novo abaixo do sol, então a condição arquetípica manifesta-se de forma complexa – não observamos arquétipos e sim complexos com núcleos arquetípicos – e este complexo veste-se com as roupas fornecidas pelo momento sócio-histórioco-cultural, observe “Afrodite” no paradigma Afro – Afro-Afrodite!

 

Don Juanismo

por: Roberto Lazaro Silveira

A síndrome de Don Juanismo ou compulsão por sedução é um transtorno caracterizado por necessidade compulsiva por sedução, envolvimento sexual fácil mas fracasso no envolvimento emocional, sendo assim, determinada por relacionamentos íntimos pouco duradouros ou até mesmo inexistentes.

Os indivíduos que têm esta síndrome são excessivamente sedutores e, em geral, têm como alvo pessoas “difíceis” ou “proibidas” de serem alcançadas.

As outras pessoas facilmente se apaixonam por eles, entretanto, o indivíduo com a síndrome logo se apercebe de que o parceiro ou o relacionamento não há mais graça e, por fim, acaba por abandonar a pessoa.

Esses indivíduos não se apegam aos seus parceiros, pois possuem apenas uma atração fugaz em que quando o outro é conquistado, este mesmo vira enjoativo, sem graça e a atração desaparece.

A expressão “don juanismo” aparece por conta do mítico Don Juan, jovem conquistador e sedutor que após conquistar inúmeras mulheres, abandonava-as.

Don Juan é um personagem literário tido como símbolo da libertinagem. O primeiro romance com referência ao personagem foi a obra El Burlador de Sevilla, de 1630, do dramaturgo espanhol Tirso de Molina.

Posteriormente Don Juan aparece em José Zorrilla com a estória de Don Juan Tenorio. A figura de Don Juan foi também cultuada na música, em obras de Strauss e Mozart, este último com a ópera Don Giovanni, composta em 1787.

Mas a figura do eterno sedutor continua atrelada à Don Juan, que aparece ainda na obra de Molière, em Le Festin de Pierre, no poema satírico de Byron chamado simplesmente Don Juan, no drama de Bernard Shaw, chamado Man and Superman.

Segundo Jung, o mito Don Juan apresenta de forma pura o comportamento do ser humano que emite ações reconhecíveis independentemente da época em que se passa, pois, é um veículo para a expressão do inconsciente coletivo.

Trata-se de um padrão (arquétipo) de personalidade caracterizado por uma pessoa narcisista, enamorada , inescrupulosa, amada e odiada e que faz tudo valer para a conquista de uma mulher.

Para o donjuan só interessa o instante do prazer e o triunfo sobre sua conquista, principalmente quando a presa de seu interesse tem uma situação civil proibida (casada, freira, irmã ou filha de amigo, etc).

Normalmente essas pessoas ignoram a decência e a virtude moral mas seu papel social tenta mostrar o contrário; são eminentemente sedutores. Sobre essa característica o escritor Carlos Fuentes, alega ao seu Don Juan a frase: “Porque nenhuma mulher me interessa se não tiver um amante, marido, confessor ou Deus, ao qual pertença …”.

Por outro lado, segundo Kaplan, deve haver significativos sentimentos homossexuais latentes desses indivíduos. Esse autor considera que, levando para a cama a mulher de outro, o donjuan estaria inconscientemente se relacionando com o marido, motivo maior de seu prazer. Tanto que é maior o prazer quanto mais expressivo é o marido ou namorado traído.

Existe também o Don Juanismo feminino. Observe,

João 4:17 ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido. Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido;

João 4:18 porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade.

João 4:19 Senhor, disse-lhe a mulher, vejo que tu és profeta.

Jesus Cristo como um grande psicólogo conhecedor dos padrões de comportamentos humanos ou arquétipos, não demorou para diagnosticar tal transtorno quando a mulher disse não ter marido; Jesus respondeu que ela estava certa em dizer a frase e completa que cinco maridos ja tiveste (quer dizer de forma ironica porque nunca teve um marido) e este que agora tens não é teu marido (pois ela era insaciável).

Jesus disse a Samaritana que lhe daria água viva e nunca mais ela teria sede (a saciedade através da relação com Deus). Esta cura ocorre em virtude do fortalecimento do vínculo paterno, pois, Deus nunca erra ou mente nem mesmo desampara seus filhos, não abandona jamais por ser eterno e mesmo depois que morrermos estaremos com ele caso nossa vida aqui na terra seja em obediencia e devoção a Ele através de seu Filho Jesus, observe,

João 4:13 Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede;
João 4:14 aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.

Fontes:
Wikipedia
Bíblia Sagrada
Ballone GJ – Síndrome de Don Juan e “Ficar com”

 

Conto de Fadas e Psicanálise

por: Roberto Lazaro Silveira

Gostaria de compartilhar com vocês esta importante leitura para aqueles que buscam o conhecimento sobre arquétipos e necessitam conhecer um pouco de psicanálise do Freud. O texto abaixo foi retirado do livro Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida, da autora Marilena Chauí, que foi impresso pela editora Brasiliense no ano de 1984, o trecho apresentado foi selecionado a partir da página 32 até a página 45. Boa leitura!

Poderíamos considerar que numa sociedade como a nossa, que dessacralizou a realidade e eliminou quase todos os ritos, os contos funcionam como espécie de “rito de passagem” antecipado. Isto é, não só auxiliam a criança a lidar com o presente, mas ainda a preparam para o que está por vir, a futura separação de seu mundo familiar e a entrada no universo dos adultos.

Do ponto de vista da repressão sexual, os contos são interessantes porque são ambíguos. Por um lado, possuem um aspecto lúdico e liberador ao deixarem vir á tona desejos, fantasias, manifestações da sexualidade infantil, oferecendo à criança recursos para lidar com eles no imaginário; por outro lado, possuem um aspecto pedagógico que reforça os padrões da repressão sexual vigente, uma vez que orientam a criança para desejos apresentados como permitidos ou lícitos, narram as punições a que estão sujeitos os transgressores e prescrevem o momento em que a sexualidade genital deve ser aceita, qual sua forma correta ou normal.

Reforçam, dessa maneira, inúmeros estereótipos da feminilidade e da masculinidade, ainda que, se tomarmos os contos em conjunto, os embaralhem bastante. Se a psicanálise estiver certa ao diferenciar fases da sexualidade infantil, podemos observar que a repressão atua nos contos seguindo essas fases: as crianças são punidas se muito gulosas (fase oral), se perdulárias ou avarentas (fase anal), se muito curiosas (fase fálica ou genital).

Em certo sentido, os contos operam com a divisão estabelecida por Freud, entre o princípio do prazer (excesso de gula, de avareza ou desperdício, de curiosidade) e o princípio de realidade (aprender a protelar o prazer, a discriminar os afetos e condutas, a moderar os impulsos). Para facilitar a exposição, vamos dividir os contos em dois grandes “tipos”: aqueles que asseguram à criança o retorno à casa e ao amor dos familiares, depois de aventuras em que se perdeu tanto por desobediência quanto por necessidade, e aqueles que lhe asseguram ser chegada a hora da partida, que isso é bom, desejável e definitivo.

Nos contos que designamos aqui como contos de retorno, a sexualidade aparece nas formas indiretas ou disfarçadas da genitalidade, que são apresentadas como ameaçadoras, precisando ser evitadas porque a criança ainda não está preparada para elas. Isto não significa que a criança seja assexuada, pelo contrário, mas que a sexualidade permitida ainda é oral ou anal. Em contrapartida, nos contos que aqui designamos como contos de partida, a sexualidade genital terá prioridade sobre as outras, com as quais vem misturada, e pode ser aceita depois que as personagens passarem por várias provas que atestem sua maturidade.

No Chapeuzinho Vermelho (que, na canção infantil, é dito “Chapeuzinho cor de fogo”, o fogo sendo um dos símbolos e uma das metáforas mais usados em nossa cultura para referir-se ao sexo), o lobo é mau, prepara-se para comer a menina ingênua que, muito novinha, o confunde com a vovó, precisando ser salva pelo caçador que, com um fuzil (na canção: “com tiro certo”), mata o animal agressor e a reconduz à casa da mamãe.

Há duas figuras masculinas antagônicas: o sedutor animalesco e perverso, que usa a boca (tanto para seduzir como para comer) e o salvador humano e bom, que usa o fuzil (tanto para caçar quanto para salvar). Há três figuras femininas: a mãe (ausente) que previne a filha dos perigos da floresta; a vovó (velha e doente) que nada pode fazer, e a menina (incauta) que se surpreende com o tamanho dos órgãos do lobo e, fascinada, cai em sua goela.

A sexualidade do lobo aparece não só como animalesca e destrutiva, mas também “infantilizada” ou oral, visto que pretende digerir a menina (o que poderia sugerir, de nossa parte, uma pequena reflexão sobre a gíria sexual brasileira no uso do verbo comer). O comer também aparece num outro conto de retorno, João e Maria. A curiosidade de João, depois acrescida pela gula diante da casa de confeitos, arrasta os irmãozinhos para a armadilha da bruxa (que é, na simbologia e mitologia da Europa medieval uma das figuras mais sexualizadas, possuída pelo demônio (o sexo), ou tendo feito um pacto com ele).

A astúcia salva as crianças quando João exibe o rabinho mole e fino de um camundongo no lugar do dedo grosso e duro (o pênis adulto), evitando a queda do menino no caldeirão fervente (outro símbolo europeu para o sexo feminino, tanto a vagina quanto o útero). Há tempo para que o pai surja e os reconduza à casa, depois de matar a bruxa. (A imagem do caldeirão fervente também aparece em O Casamento de Dona Baratinha, o noivo nele caindo, vítima da gula, não podendo consumar o casamento.)

Nos contos de partida, a adolescência é atravessada submetida a provações e provas até ser ultrapassada rumo ao amor e à vida nova. Nesses contos, a adolescência é um período de feitiço, encantamento, sortilégio que tanto podem ser castigos merecidos quanto imerecidos, mas que servem de refúgio ou de proteção para a passagem da infância à idade adulta. É um período de espera: Gata Borralheira na cozinha, Branca de Neve semimorta no caixão de vidro, Bela Adormecida em sono profundo, Pele-de-Burro sob o disfarce repelente. Heróis e heroínas se escondem, se disfarçam, adoecem, adormecem, são metamorfoseados (como os príncipes nos Três Cisnes, a princesa em A Moura Torta, o príncipe em A Bela e a Fera, etc.).

Em geral, as meninas adormecem ou viram animaizinhos frágeis (pomba, corça) e os meninos adoecem, viram animais repugnantes (freqüentemente, sapos, o sapo sendo um dos companheiros simbólicos principais das bruxas) ou viram pássaros (o pássaro sendo considerado um símbolo para o órgão sexual masculino). A expressão, muito usada antigamente, “esperar pelo príncipe encantado” ou “pela princesa encantada” não queria dizer apenas a espera por alguém muito bom e belo, mas também a necessidade de aguardar os que estão enfeitiçados porque ainda não chegou a hora do desencantamento.

Gata Borralheira vai ao baile (primeiros jogos amorosos, como a dança dos insetos), mas não pode ficar até o fim (a relação sexual) sob pena de perder os encantamentos antes da hora. Deve retornar à casa, deixando o príncipe doente (de desejo), e com o par de sapatinhos momentaneamente desfeito, ficando com um deles, que conserva escondido sob as roupas. Borralheira e o príncipe devem aguardar que os emissários do rei-pai a encontrem, calce os sapatos, completando o par. Sapatos que são presente de uma mulher boa e poderosa (fada) e que pertencem apenas à heroína, de nada adiantando os truques das filhas da madrasta (cortar artelhos, calcanhar) para deles se apossarem.

As filhas da madrasta querem sangrar antes da hora e sobretudo querem sangrar com o que não lhes pertence, de direito (relação sexual ilícita, repressivamente punida pelo conto). Branca de Neve, cujo corpo não foi violentado pelo fiel servidor (não lhe arrancou o coração, a virgindade, substituindo-o pelo de uma corça) será vítima da gula e da sedução da madrasta-bruxa, permanecendo imóvel num caixão de cristal (seus órgãos sexuais) com a maçã atravessada na garganta, sem poder engoli-la.

Além da simbologia religiosa em torno da tentação pelo fruto proibido (o sexo), o vermelho trazido pela bruxa liga-se também à simbologia medieval onde as bruxas fabricam filtros de amor usando esperma e sangue menstrual, bruxaria que indica não só a puberdade de Branca, mas também a necessidade de expeli-la para poder reviver. Despertará por um descuido dos anões vigilantes – a casinha na floresta, os pequenos seres trabalhadores que penetram em túneis escuros no fundo da terra (que na simbologia sexual é imagem da mãe fértil), um “Mestre”, um a ter sono permanente, outro a espirrar, outro não podendo falar, não foram proteção suficiente, a morte aparente tendo sido necessária para reter Branca. (Seria interessante observar a necrofilia do belo príncipe, pois pretende levar a morta em sua companhia.)

Bela Adormecida será vítima da curiosidade que a faz tocar num objeto proibido – o fuso, onde se fere (fluxo menstrual), mas sem ter culpa, visto que fora mantida na ignorância da maldição que sobre ela pesava. Sangrando antes da hora, adormece, devendo aguardar que um príncipe valente, enfrentando e vencendo provas, graças à espada mágica (também símbolo do órgão viril), venha salvá-la com um beijo. Em sua forma genital, o sexo aqui aparece de duas maneiras: prematuro e ferida mortal, no fuso; oportuno e vivificante, na espada.

De modo geral, heróis e heroínas são órfãos de pais (os heróis) ou de mãe (as heroínas), vítimas do ciúme de madrastas, padrastos ou irmãos e irmãs mais velhos. Essa armação tem uma finalidade. Graças a ela, preservam-se as imagens de pais, mães e irmãos bons (pai morto na guerra, mãe morta no parto, irmãos menores desamparados), enquanto a criança pode lidar livremente com as imagens más.

Há um desdobramento de cada membro da família em duas personagens, o que permite à criança realizar na fantasia a elaboração de uma experiência cotidiana e real, isto é, a da divisão de uma mesma pessoa em “boa” e “má”, e dos sentimentos de amor e ódio que também experimenta. Lutar contra padrastos, madrastas e seus filhos é mais fácil do que lutar com pai, mãe e irmãos.

Freqüentemente, os contos se estruturam de modo mais complexo. Em A Bela Adormecida, por exemplo, há várias figuras femininas superpostas: a mãe ausente; a fada má que maldiz a criança; a fada boa que substitui a morte pelo sono e promete um salvador; a velha fiandeira, desobediente, que conservou o fuso proibido; a menina curiosa e desprevenida que, andando por lugares desconhecidos e subindo por uma escada (símbolo da relação sexual) se fere e adormece, à espera da espada e do beijo.

A fada má pune o rei que a excluiu de um festa dedicada à fertilidade (o nascimento da princesa), a punição consistindo em decretar a morte da menina quando esta apresentar os sinais da fertilidade (maldição que simboliza o medo das meninas diante da menstruação e da alteração de seus corpos). A morte da menina decorre da curiosidade que a faz antecipar com um objeto errado (masturbação) a sexualidade.

A fada boa está encarregada de contrabalançar o equívoco (e o descuido masculino, que não suprimiu todos os fusos) colocando a menina na tranqüilidade sonolenta da espera e entregando a espada ao príncipe (que, portanto, recebe o objeto mágico de uma mulher, pois todos nascem de mulheres). O beijo final contrabalança o medo que a espada poderia provocar, pois é instrumento de guerra e morte (o beijo simboliza, em muitas culturas, não só amor e amizade, mas também um pacto ou uma aliança).

Na maioria dos contos, o pai é indiretamente responsável pela maldição ou pelas desventuras da filha. Mas em A Bela e a Fera o pai é diretamente responsável ao arrancar de um jardim que não lhe pertence, uma rosa branca, despertando a Fera. Há no roubo da flor a simbolização do desejo e do medo inconsciente das meninas de serem raptadas ou violentadas.

A figura masculina se divide: há o pai-bom e o homem-fera, divisão que obriga Bela a viver com o segundo para salvar o primeiro. Contudo, desejando rever o pai doente, Bela deixa que Fera, abandonada, também adoeça (de desejo). A imaturidade de Bela, seu medo da Fera, seu desejo de permanecer junto ao pai só são superados quando, pela piedade e pela sedução, retorna ao castelo da Fera, dedica-se a ela e, ao fazê-lo, quebra o encanto, surgindo o belo príncipe com quem viverá.

O conto se desenvolve como processo de amadurecimento da heroína e de constituição da imagem masculina através de seus desejos. Do pai à fera, da fera ao príncipe. Em Pele-de-Burro, o desejo incestuoso do pai é a mola do conto.

A primeira tentativa da filha para evitar o incesto fracassa: pede vestido feitos de Natureza (sol, mar e lua), mas a Natureza não é contrária ao incesto, o rei podendo perfeitamente conseguir os vestidos.

A princesa deve, então, fugir. Mas seu disfarce indica os efeitos do desejo incestuoso do rei: cobre-se numa pele de burro, animalizando-se. Num outro reino (que não o da Natureza), a princesa irá aos bailes da corte, mas, como a Gata Borralheira, não pode ficar até o fim para não correr o risco de ser descoberta.

Porém, o príncipe apaixonado ficará doente e o remédio virá no bolo feito pela princesa. Bolo que possui o mesmo sentido e o mesmo efeito que a espada mágica, porém com a marca do feminino: é no interior do bolo que se encontra o remédio salvador, o anel. Embora os contos reforcem estereótipos de feminilidade e masculinidade e preconceitos sobre homem e mulher, são ambíguos e ricos e por isso não são sexistas: a salvação pode ser trazida tanto pelo herói quanto pela heroína. As fadas, aliás, possuem um objeto mágico supremo, talismã dos talismãs: a vara de condão, sendo seres excepcionais porque reúnem atributos femininos e masculinos, sonho e fantasia de todas as crianças (e não só delas, evidentemente).

Em Os Três Cisnes, é a menina quem quebra o encantamento dos irmãos, tudo dependendo de sua força de vontade (ficar em absoluto silêncio durante sete anos) ou moderar o princípio de prazer, e de sua coragem e destreza para acertar as setas, no momento exato, nos corações dos três cisnes, matando-os para que vivam os irmãos. Ela é portadora de um objeto viril – o arco e flecha -, sabendo usá-lo.

Sua destreza é ímpar: deve usar, e usa, o arco tendo os olhos vendados (….. a venda nos olhos é símbolo medieval para a morte. Este conto, portanto, realiza uma verdadeira crítica da relação sexo-morte, pois morte dos cisnes é nascimento de sua virilidade, por obra de uma mulher. E o incesto, aqui, é óbvio). Além de não serem sexistas e de contornarem o incesto, os contos não condenam o sexo com animais: é o amor e o afeto pelos animais que permitirá desencantá-los.

Alguns psicanalistas consideram que as primeiras manifestações da sexualidade estão liadas ao que denominam escolha de objeto e objeto parcial. A mãe (ou quem faz o papel de mãe para a criança) seria o primeiro objeto escolhido e seus seios seriam o primeiro objeto parcial. Por outro lado, como a mãe não está permanentemente presente, acarinhando e alimentando a criança, esta desenvolve fantasias sobre o objeto parcial: ausente ou faltando, torna-se um mau objeto; presente e satisfatório, torna-se um bom objeto.

A criança desenvolve também fantasias de agressão e de ternura com relação a esses objetos, sobretudo a da perseguição, no caso do mau objeto. Assim, nos contos, frutas, plantas, flores e alimentos venenosos ou ardilosos seriam objetos parciais maus ou persecutórios, mas contrabalançados por bolos, filtros, poções, jóias que trazem saúde e quebram feitiços, sendo objetos parciais bons, com os quais a criança e os contos realizam a reparação do objeto escolhido, amado e odiado.

O objeto parcial persecutório mais perfeito, porém, é aquele que não é devorado pela criança, mas que ameaça devorá-la. Nos contos: os dragões, os lobos, os ogros, as tempestades, as florestas sombrias, os castelos cheios de armadilhas. E para contrabalançar tamanha perseguição e reparar o objeto amado, nos contos de retorno, adultos salvam as crianças da perseguição e, nos contos de partida, a sexualidade amadurecida e vencedora das fantasias persecutórias mais antigas aparece no próprio herói ou na heroína cujos objetos mágicos (oferecidos por um bom adulto) lhes permitem, sozinhos, vencer a perseguição. Nesse mesmo contexto, compreende-se que a fada tenha a vara e a princesa dos Três Cisnes, o arco.

É colocado em mãos femininas algo que poderia ser fonte de temor para as meninas. São raros os casos, nos contos de retorno, em que a criança consegue voltar à casa sozinha, sem auxílio de algum adulto, mesmo porque a finalidade do conto é mostrar o despreparo da criança para sair pelo mundo. A grande exceção é o Pequeno Polegar, criança em tudo excepcional.

Como seu nome indica, Pequeno Polegar é uma anomalia (e talvez por isso o entusiasmo das crianças por ele), o tamanho compensado pela inteligência fora do comum. As botas de sete léguas, que com astúcia consegue, além de serem capacidade mágica para vencer o espaço e o tempo (a pouca idade), são também meio de assegurar à criança que seus órgãos sexuais pequenos não exigem renúncia dos desejos, mas imaginação para satisfazê-los. É interessante observar que, se nos Três Cisnes a menina empunha o arco, aqui o menino entra num enorme e protetor “recipiente’: as botas. E se sai muito bem.

O Pequeno Polegar é um dos contos onde melhor aparecem tanto o medo que a criança tem da rejeição (ser morta pelos pais) quanto a necessidade de reparação, isto é, de recompor a bondade dos pais depois da fantasia de sua imensa maldade. Por isso mesmo as proezas maiores são feitas. Polegar substitui para si próprio e para os irmãozinhos o pai e a mãe por pais ideais: as botas acolhedoras e salvadoras do menino que não abandona os irmãos, os protege contra os perigos da floresta e contra o gigante, os traz de volta à casa com fortuna, garantindo a sobrevivência da família. Não há príncipes nem princesas, tudo depende da inteligência e imaginação da criança pobre e minúscula.

Há nos contos contínua intervenção de bons adultos, mas que não intervêm de modo casual ou arbitrário e sim de acordo com várias regras, entre as quais se destaca a escolha dos mais fracos (o caçula, o órfão, a vítima) e dos que têm senso de justiça, além da coragem. O uso dos talismãs também está submetido as regras, os transgressores sendo punidos (perda da potência do objeto mágico, retorno do objeto contra o usuário) ou protelada a chegada à meta (a seqüência de provas recomeçando ou tornando-se mais árdua).

Heróis e heroínas precisam demonstrar que são dignos do talismã (seja por suas qualidades anteriores à recepção do objeto, seja pelo uso que dele faz, seja pela obediência às regras de seu emprego). Em resumo: as condutas estão reguladas por normas e valores, a finalidade do conto sendo persuadir a criança de que tais normas são boas e verdadeiras e que o sofrimento decorre apenas de sua desobediência. É o compromisso do conto, situado entre o lúdico e a repressão.

Na maioria dos contos, o talismã é dom de um adulto para uma criança, mesmo que esta não o saiba. Há, porém, uma formidável exceção: João e o Pé de Feijão. Obtido numa sabida transação (que os adultos não entendem e castigam) o grãozinho de feijão, bom sêmen, plantado em boa terra, cresce durante uma única noite. Gigantesco caule, sobe, sobe, eleva-se até `s nuvens, rijo e duro, o menino podendo nele trepar.

Como era inevitável, João penetra no castelo do gigante malvado (figura masculina ameaçadora) que possui um segredo precioso, uma galinha que bota ovos de ouro (imagem feminina da fertilidade, guardada em segredo, fonte de riqueza: os que nascem). Dela se apodera João, fugindo pelo caule, perseguido pelo gigante e, para salvar-se, o menino corta o belo pé de feijão.

O conto procura lidar com um elemento repressivo complicado. Obtida a galinha chocadeira de riquezas por um furto (justo, pois o gigante é mau e a família, pobre), esse ato tem clara significação incestuosa e pode ser um risco para a vida da família e do menino, pois o gigante se põe a descer pela árvore, a mesma por onde o menino trepara. É preciso cortar o pé de feijão depois que o essencial foi conseguido, isto é, a fertilidade. O sexo cresce livremente – é como um elemento da natureza, um vegetal -, mas essa liberdade deve encontrar um limite e ser freada, cortada. O menino que subiu é o gigante mau que desce. E vem com fúria assassina.

Os contos de fadas, tais como os conhecemos, são resultado de muitas reelaborações na sociedade européia, fixados nos séculos XVIII e XIX, carregando as concepções desses séculos sobre a sexualidade (e sobre outras coisas também). Ora, é interessante observar que, no século XIV, ao lado desses contos, surge, na Inglaterra, um outro tipo de estória, em certos aspecto semelhante ao maravilhoso dos contos, mas com uma diferença fundamental: o mundo adulto não é apresentado com divisões e ambigüidades, bom e mau, difícil e desejável, mas como mau e indesejável.

Estamos pensando em Peter Pan e em Alice – o menino que recusou crescer, ficando na Terra do Nunca, e a menina cujo autor não desejou que ela crescesse, fazendo-a conhecer a luta mortal e absurda com a Rainha do Baralho num tabuleiro de xadrez. Muitos comentadores, de formação psicanalítica, afirmam que o medo de Peter Pan o faz preferir a imaturidade sexual, o homossexualismo e a masturbação (o pó de pirlimpimpim e o vôo), e que as “perversões” de Lewis Carrol (o autor de Alice) o fazia sentir atração sexual pelas meninas, não desejando que ficassem adultas.

Não pretendemos refutar nem concordar com esse comentadores. Gostaríamos apenas de lembrar que essas estórias foram imaginadas num período conhecido como o da “moral vitoriana”, quando a Inglaterra, passando pela Segunda revolução industrial, mantinha o controle capitalista sobre o mundo. A sociedade desse período é narrada e descrita por inúmeros autores como uma das sociedades mais repressivas da sexualidade. Assim sendo, podíamos considerar a recusa do mundo adulto por Peter Pan e por Alice, em vez de “anormal”, talvez muito saudável e lúcida.

A Terra do Nunca, apesar do Capitão Gancho, é perfeita, mas o País das Maravilhas é feito de ameaças e de frustrações. Num romance da escritora inglesa Virgínia Woolf, Orlando (estória de um homem-mulher que vive em dois períodos diferentes da história da Inglaterra), a romancista descreve o momento em que, adormecendo como rapaz no século XVII, a personagem desperta como mulher, em pleno século XIX: vê por toda parte casais com trajes cinza e negro, o céu é tenebroso e opressivo e a moça despertada sente uma dor inexplicável no dedo anular esquerdo (isto é, onde se coloca a aliança de casamento).

Eis a versão repressiva de Eros e Psique: dois seres, enclausurados num cubículo e em suas vestes, sem corpo e sem rosto, enlaçados pelas convenções. Encontro sem contato (as bocas não se beijam, beijam trapos) e sem intimidade, pois, no cubículo fechado e sob os panos que cobrem seus corpos e rostos, se descobre a presença da sociedade inteira, vigiando e controlando o pobre par.

Será Freud o primeiro a captar que Eros e Psique não são dois entes separados perpetuamente buscando um ao outro, mas que são um só e mesmo ser: Eros (o desejo) habita Psique (a alma). Como no poema de Fernando Pessoa, em que o príncipe destemido busca a princesa encantada para descobrir que ele era ela. Desejo de indivisão e de fusão perpétua (impossível), o laço que enlaça em terno e fundo abraço, é a sexualidade humana, perpetuamente reprimida.

 

Ego

por: Roberto Lazaro Silveira

Para Freud o ego é uma das três estruturas do modelo triádico do aparelho psíquico – id, ego, superego. O ego desenvolve-se a partir do id com o objetivo de permitir que seus impulsos sejam eficientes, ou seja, levando em conta o mundo externo: é o chamado princípio da realidade.

É esse princípio que introduz a razão, o planejamento e a espera no comportamento humano. A satisfação das pulsões é retardada até o momento em que a realidade permita satisfazê-las com um máximo de prazer e um mínimo de consequências negativas.

A principal função do ego para Freud é buscar uma harmonização inicialmente entre os desejos do id e a realidade e, posteriormente, entre esses e as exigências do superego.

Para Carl Gustav Jung, o ego sendo um arquétipo apresenta-se em forma de um complexo; o “complexo do ego”. Diz ele sobre o ego: “É um dado complexo formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória”. Durante nosso amadurecimento ou processo de individuação o ego estabece um eixo em parceria com outro arquétipo o Self – sí mesmo.

Inicialmente o Ego está fundido com o Self, mas deve se diferenciar dele. Jung descreve uma interdependência dos dois: o Self, que possui uma visão mais holista, é supremo. A função do Ego, porém, é confrontar ou satisfazer, conforme o caso, às exigências dessa supremacia. O confronto entre o Ego e o Self foi identificado por Jung como característico da segunda metade da vida.

Diferentemente de Freud, Jung entendeu que o inconsciente não é estático e rígido formado pelos conteúdos que são reprimidos pelo ego. Ao contrário, o inconsciente é dinâmico, produz conteúdos, reagrupa os já existentes e trabalha numa relação compensatória e complementar com o consciente.  No inconsciente encontram-se, em movimento, conteúdos pessoais, adquiridos durante a vida e mais as produções do próprio inconsciente. Jung classificou o inconsciente em Inconsciente Pessoal (ou Individual) e Inconsciente Coletivo. 

O  Inconsciente Pessoal ou Individual é aquela camada mais superficial de conteúdos, cujo marco divisório com o consciente não é tão rígido.  É uma camada de conteúdos que se acha contígua ao consciente.  Estes conteúdos subjazem no inconsciente por não possuírem carga energética suficiente para emergir na consciência. 

Correspondem àqueles aspectos que em algum momento do desenvolvimento da personalidade não foram compatíveis com as tendências da consciência e foram, portanto reprimidas.  Também estão, no inconsciente pessoal, percepções subliminares, ou seja, aquelas que foram captadas pelos nossos sentidos de forma subliminar, que nem nos demos conta de termos contato com o fato em si. 

Conteúdos da memória que não necessitam estar presentes constantemente na consciência estão presentes no inconsciente pessoal. Todos estes conteúdos formam no Inconsciente Pessoal um grande banco de dados que poderão surgir na consciência a qualquer momento. Outros importantes conteúdos estão no inconsciente pessoal; são os complexos. 

O Complexo de Ego então, para Jung encontra-se no inconsciente pessoal, o núcleo deste complexo assim como de todos os demais é arquetípico, ou seja, surge do inconsciente coletivo. Para Jung existem tantos arquétipos quantas as situações típicas da vida.

O Ego também é visto por Jung como resultante do choque entre as limitações físicas e corporais da criança e a realidade ambiente. A frustração ajuda a formar ‘ilhotas’ de consciência que se juntam ao Ego. O Ego, assevera Jung, adquire sua plena existência durante o terceiro ou quarto ano. Psicanalistas e psicólogos analíticos hoje concordam em que ao menos um elemento de organização perceptiva está presente desde o nascimento, e em que, antes do final do primeiro ano de vida, uma estrutura de Ego relativamente sofisticada já se encontra atuando. “Ego é ‘alguém’ que começa a dar início a sua jornada heróica em busca da totalidade do Self, em busca da meta do Processo de Individuação. Isto é tornar-se Indivíduo.”

A individuação leva, pois, a uma valorização natural das normas coletivas; mas se a orientação vital for exclusivamente coletiva, a norma é supérflua, acabando-se a própria moralidade. Quanto maior a regulamentação coletiva do homem, maior sua imoralidade individual. A individuação coincide com o desenvolvimento da consciência que sai de um estado primitivo de identidade(v). Significa um alargamento da esfera da consciência e da vida psicológica consciente.”

Jung lembra que o mérito da observação de que os arquétipos existem não pertence a ele e sim a PLATÃO, com seu pensamento “de que a idéia é preexistente e supra-ordenada aos fenômenos em geral.”

Outros pensadores como ADOLF Bastian, evidenciam a ocorrência de certas “idéias primordiais…” Hermam USENER que reconhece “a pré-formação inconsciente na figura de um pensamento inconsciente.” Salomão em seu livro bíblico Eclesiastes afirma que não há nada de novo debaixo do sol.

A contribuição de Jung se dá, entretanto, nas provas obtidas por ele, que os arquétipos existem e aparecem sem influência de captação externa. De acordo com Jung esta constatação “significa nada menos do que a presença, em cada psique, de disposições vivas inconscientes, e, nem por isso menos ativas, de formas ou idéias em sentido platônico que instintivamente pré-formam e influenciam seu pensar, sentir e agir.”

Alguns arquétipos foram amplamente enfatizados por Jung, pois permeiam o desenvolvimento da personalidade e invariavelmente estão bem próximo de nós, no nosso dia-a-dia e são mobilizados, pela psique, tão logo surja uma situação típica. Alguns arquétipos: Anima, Animus, Ego, Velho Sábio, Self, Persona, Grande Mãe.

Acredito que o ego então possue a função de intermediador ou negociador entre o Self e os demais arquétipos, o resultado destas negociações quendo bem sucedidas resultam em nosso amadurecimento ou nossa individuação. Caso ocorra um impasse entre as constelações arquetípicas, ou seja, um complexo exige muita energia psiquica, o eixo ego self irá moderar mobilizando um arquétipo oposto para gerar equilíbrio – Luta entre Anjos e Demônios.

Por exemplo podemos citar o caso do complexo que se dá em torno da persona. Este complexo poderá mobilizar energia suficiente para o eixo Ego-Self convocar a Anima no caso do Homem, esta quando em estado inconsciente pode fazer com que o homem, numa possessão extrema, tenha comportamento tipicamente feminino, como alterações repentinas de humor, falta de controle emocional.

Quem nunca viu o chefe irritado tando um ataque destes! Na verdade o seu psiquismo está contrabalanceando a persona que o mesmo utiliza para "manter o respeito" no trabalho. Em seu aspecto positivo a anima, quando reconhecida e integrada à consciência, servirá como guia e despertará, no homem o desejo de união e de vínculo com o feminino e com a vida.  A anima será a “mensageira do inconsciente” tal como o deus Hermes da mitologia Grega.

O arquétipo da Sombra poderá também neste caso ocupar um espaço nesta constelação formada por Ego-Sel e Persona desencadeando seu complexo para atingir a homeostase psiquica atuando frente ao mesmo gênero da pessoa.

A sombra apresenta-se como um poderoso arquétipo, já que é a fonte de tudo o que existe de melhor e de pior no ser humano. Como todo e qualquer elemento psíquico, a sombra possui aspectos positivos e negativos para o desenvolvimento da personalidade. Vejamos um líder militar que para exercer suas funções tem que formar uma persona que não permite demostrar "fraquezas" – Então a Persona a ser constituída necessitará que o Eixo Ego-Self deposite na Sombra as características boas Obs: Sombra é o aspecto desconhecido não apenas o que é sombrio, muitas vezes as virtudes de um homem estão na sombra.

Um erro comum é exemplificar a Sombra através da história do Dr. Jack and Ms. Ride – Isto é um caso de dupla personalidade meus caros leitores. O Dr. Jack possue sua sombra e o Ms. Ride também possue uma, ou seja, o Ride não é nem nunca foi a Sombra do Jack. Acredito que em casos como estes de dupla personalidade, o ego é suprimido porque não conseguiu interagir-se com o Self de forma a equilibrar as constelações arquetípicas através de mecanismos como Persona x Sombra x Anima ou Animus. O processo de individuação é particionado, gera-se uma nova persona assim como uma nova constelação arquetípica.

Cada personalidade funciona como uma unidade totalmente distinta, integrada com seus conteúdos, padrões de comportamentos e relacionamentos sociais. A transição de uma personalidade para outra ocorre de forma repentina e inesperada, fazendo com que o indivíduo e as pessoas que convivem com ele percebam a diferença de postura, de trato e de atitudes pela mudança brusca destas funções.

O contato com a sombra é um grande passo em direção á individuação. A sombra, quando trabalha em harmonia com o ego, deixa a vida mais produtiva e criativa. Jung mergulhava em seu próprio inconsciente e trazia à luz, aspectos que o ajudavam a entender o seu mundo e de seus pacientes.  Muitas vezes observou, nos sonhos e fantasias dos pacientes e nas suas próprias fantasias, que os temas eram recorrentes, cujas diferenças ficavam a cargo das experiências individuais de cada um, mas o cerne do tema era o mesmo. 

Referências:
JUNG, C.G., Memórias, Sonhos e Reflexões. 22ª ed. Rio de Janeiro. N. Fronteira. 2002;
JUNG, C.G., O Eu e o Inconsciente. 13ª ed. Petrópolis. Vozes. 2000;
JUNG, C.G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 3ª ed. Petrópolis. Vozes. 2003;
JUNG, C.G., Psicologia do Inconsciente. 15ª ed. Petrópolis. Vozes. 2004;
JUNG, C.G., Tipos Psicológicos. Petrópolis. Vozes. 1991.

 

Personalidade

por: Roberto Lazaro Silveira

O termo personalidade é muito descutido e popular. De acordo com a literatura psicológica alemã persönlichkeit costuma ser usado de maneira ampla, incluindo temas como inteligência; o conceito anglófono de personality costuma ser aplicado de maneira mais restrita, referindo-se mais aos aspectos sociais e emocionais do conceito alemão.

Personalidade deriva do latim – persona – que significava máscara, ou seja aquilo que queremos parecer aos outros. Para os estudos psicológicos a personalidade pode ser vista como uma organização dos vários sistemas físicos, fisiológicos, psíquicos e morais que se interligam, determinando o modo como o indivíduo se ajusta ao ambiente em que vive.

Persona, no uso coloquial, é um papel social ou personagem vivido por um ator. É uma palavra italiana derivada do Latin para um tipo de máscara feita para resoar com a voz do ator – per sonare sigifica “soar através de” – permitindo que fosse bem ouvida pelos espectadores, bem como para dar ao ator a aparência que o papel exigia.

A palavra latina derivada da palavra etrusca “phersu”, com o mesmo significado, e seu significado no último período Romano alterado para indicar um “personagem” de uma performance teatral. Na psicologia analítica de Jung, é dado o nome de persona à função psíquica relacional voltada ao mundo externo, na busca de adaptação social.

Personalidade é uma organização interna e dinâmica dos sistemas psicofísicos que criam os padrões de comportar-se, de pensar e de sentir característicos de uma pessoa. No senso comum quanto mais autêntica esta organização se apresenta para diferenciar o indivíduo mais forte a personalidade.

Jung propos dois agrupamentos de traços que compreendem em si todas as características pessoais, a Introversão e a Extroversão. A extroversão consiste na tendência de focalizar o interêsse no mundo exterior, vivendo mais no presente, dando mais valor às pessoas e ao êxito social, sendo mais práticas. A Introversão consiste em concentrar interesse nos pensamentos e idéias próprias, visualizando mais o futuro, sendo mais intuitiva.

Um transtorno de personalidade ocorre quando em alguma etapa da vida do indivíduo surgem acontecimentos contrários ao processo de individuação, ou seja, prejudicam a adaptação do indivíduo às situações que enfrenta, causando a ele próprio, ou mais comumente aos que lhe estão próximos, sofrimento e incomodação.

As pessoas acometidas por transtornos de personalidade ás vezes não procuram por, uma vez que os traços de caráter pouco geram sofrimento para si mesmos, mas perturbam suas relações com outras pessoas, fazendo com que amigos e familiares aconselhem o tratamento. Geralmente aparecem no início da idade adulta podendo ser agravados durante o envelhecimento.

A pessoa faz o mal para seus familiares e amigos sem saber – a personalidade dele é assim mesmo dizem como forma de conformar-se – no entando, para evitar o sofrimento de seus entes queridos cabe ao cidadão a busca pelo autoconhecimento proporcionada pela psicoterapia. Desta maneira a ajuda de um psicoterapêuta poderá ser útil á você e toda sua família.

Dentre os vários transtornos de personalidade podemos citar:

Paranóide: Indivíduos desconfiados, que se sentem enganados pelos outros, com dúvidas a respeito da lealdade dos outros, interpretando ações ou observações dos outros como ameaçadoras. São rancorosos e percebem ataques a seu caráter ou reputação, muitas vezes ciumentos e com desconfianças infundadas sobre a fidelidade dos seus parceiros e amigos.

Esquizóide: Indivíduos distanciados das relações sociais, que não desejam ou não gostam de relacionamentos íntimos, realizando atividades solitárias, de preferência. Pouco ou nenhum interesse em relações sexuais com outra pessoa, e pouco ou nenhum prazer em suas atividades. Não têm amigos íntimos ou confidentes, não se importam com elogios ou críticas, sendo frios emocionalmente e distantes.

Dependente: Indivíduos que têm necessidade de serem cuidados, submissos, sempre com medo de separações. Têm dificuldades para tomar decisões, necessitam que os outros assumam a responsabilidade de seus atos, não discordam, não iniciam projetos. Sentem-se muito mal quando sozinhos, evitando isso a todo custo.

Esquizotípica: Indivíduos excêntricos e estranhos, que têm crenças bizarras, com experiências de ilusões e pensamento e discurso extravagante. Falta de amigos e muita ansiedade no convívio social.

Borderline: Indivíduos instáveis em suas emoções e muito impulsivos, com esforços incríveis para evitar abandono (até tentativas de suicídio). Têm rompantes de raiva inadequada. As pessoas a sua volta são consideradas ótimas, mas frente a recusas tornam-se péssimas rapidamente, sendo desconsideradas as qualidades anteriormente valorizadas. Costumam apresentar uma hiper reatividade afetiva, em que as situações boas são ótimas ou excelentes, e as ruins ou desfavoráveis são péssimas ou catastróficas.

Narcisista: Indivíduos que se julgam grandiosos, com necessidade de admiração e que desprezam os outros, acreditando serem especiais e explorando os outros em suas relações sociais, tornando-se arrogantes. Gostam de falar de si mesmos, ressaltando sempre suas qualidades e por vezes contando vantagens de situações. Não se importam com o sofrimento que causam nas outras pessoas e muitas vezes precisam rebaixar e humilhar os outros para que se sintam melhor.

Histriônica: Indivíduos facilmente emocionáveis, sempre em busca de atenção, sentindo-se mal quando não são o centro das atenções. São sedutores, com mudanças rápidas das emoções. Tentam impressionar aos outros, fazendo uso de dramatizações, e tendem a interpretar os relacionamentos como mais íntimos do que realmente são.

Anti-social: Indivíduos que desrespeitam e violam os direitos dos outros, não se conformando com normas. Mentirosos, enganadores e impulsivos, sempre procurando obter vantagens sobre os outros. São irritados, irresponsáveis e com total ausência de remorsos, mesmo que digam que têm, mais uma vez tentando levar vantagens. Podem estabelecer relacionamentos afetivos superficiais, mas não são capazes de manter vínculos mais profundos e duradouros.

Obsessivo-Compulsiva: Indivíduos preocupados com organização, perfeccionismo e controle, sempre atento a detalhes, listas, regras, ordem e horários. Dedicação excessiva ao trabalho, dão pouca importância ao lazer. Teimosos, não jogam nada fora (“pão-duro”) e não conseguem deixar tarefas para outras pessoas.

Esquiva: Indivíduos tímidos (exageradamente), muito sensíveis a críticas, evitando atividades sociais ou relacionamentos com outros, reservados e preocupados com críticas e rejeição. Geralmente não se envolvem em novas atividades, vendo a si mesmos como inadequados ou sem atrativos e capacidades.

 

Catarse

por: Roberto Lazaro Silveira

catarse

terapia holistica

psicologia simbólica

Para Jung existem quatro momentos na psicoterapia. O primeiro deles corresponde à catarse, análogo á confissão, prática ancestral associada a rituais de iniciação. Este exercício deve propiciar à pessoa demolir suas defesas internas ao compartilhar com alguém o que está sobrecarregando seu self. Assim, ao concretizar este mecanismo catártico, ela ingressa em uma nova fase de amadurecimento, é como se enxergasse o inimigo e agora pudesse focar sua mira. A catarse é um arquétipo, pois, desencadeia um complexo reconhecível independentemente do período histórico.

De acordo com Aristóteles, na “Poética”, catarse é o sentimento de terror e piedade que a tragédia – gênero poético – deve provocar nos expectadores, quando o herói, ou seja, o herói trágico, passa da ventura para a desventura por ter cometido algum “ato falho”. A catarse, então, seria a purificação dessas emoções.

A catarse é um símbolo, logo, possue uma amplitude que abrange variados âmbitos e acepções mas que sempre traduz a idéia de purificação, limpeza, libertação, superação feliz, consciente, no ato, de alguma forma de opressão, estranha à essência do ser, que influindo na expressão da sua verdade interior, corrompe e faz sofrer. Reconhecido o sofrimento ele terá começo meio e fim – “O choro pode durar uma noite; pela manhã, porém, vem o cântico de júbilo” (Salmos. 30: 5b).

Sigmund Freud utilizou-se deste conceito como um fundamento para sua teoria. Enquanto a poesia dramática inspira-se em moldes religiosos ancestrais, o modelo seguido pela psicanálise é o da simbolização poética. Freud descreve como estados catárticos o que Breuer induzia nos pacientes através da hipnose. Um meio de contornar as censuras estabelecidas pelo superego, e propiciar aos enfermos da mente a possibilidade de reviver seus traumas e, assim, superá-los. Com o tempo, porém, Freud substituiu este método pelo da associação livre de idéias, a ‘cura pela palavra’.

 

Mitologia e Arquétipos

por: Roberto Lazaro Silveira

Podemos vislumbrar nas obras de Jung que os personagens mitológicos são fontes de compreensão para o entendimento dos processos humanos.

Segundo o livro de memórias de Jung, desde 1909, o mesmo sentiu necessidade do estudo da mitologia para poder compreender a simbologia de uma psicose latente (JUNG, 1964 – 2006).

Este fato levou-o a descobrir futuramente que os núcleos dos complexos são arquetípicos e desta forma imprescindíveis para a compreensão dos fenômenos psicológicos.

A teoria junguiana sobre os arquétipos inicia-se em 1912, quando relata a manifestação de imagens primordiais em pacientes e em sua auto-análise, cujas temáticas essenciais repetiam-se nos mitos de diversas culturas. Jung fora entusiasmado pelas idéias do historiador neoplatônico Friedrich Creuzer (1771-1858), como ele mesmo coloca: “O acaso me conduziu ao Simbolismo e Mitologia dos Povos Antigos, de Friedrich Creuzer, e esse livro me entusiasmou” (Jung, 1985, p.145).

É necessário ressaltar que esta teoria possui uma base biológica e empírica, logo, não se harmoniza ao espiritualismo de base mística, mas os pressupostos essenciais assemelham-se.

Muitos dos argumentos biológicos em Jung surgem como uma maneira de conferir aos seus conceitos uma roupagem mais aceitável ao empirismo dominante, não sendo premissas necessárias para as suas teorias.

Referências
JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Rio de Janeiro: Vozes, 1985.
______. Memória Sonhos e Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

 

Sombra

por: Roberto Lazaro Silveira

Gostaria de apresentar abaixo um texto para melhorar nossa concepção sobre a sombra. Trata-se de um trecho introdutório coletado no livro A Sombra e o Mal nos Contos de Fadas. Esta textualização é de autoria da Marie-Louise Von Franz e data de 1915 e foi coletada do referido livro em sua terceira edição publicada em 2002 pela editora Paulus, leia,

Geralmente, na psicologia junguiana, definimos sombra como a personificação de certos aspectos inconscientes da personalidade que poderiam ser acrescentados ao complexo do ego mas que, por várias razões, não o são.

Poderíamos portanto dizer que a sombra é a parte obscura, a parte não vivida e reprimida da estrutura do ego, mas isso é só parcialmente verdadeiro.

Jung criticava seus alunos quando estes se apegavam aos seus conceitos de maneira literal, fazendo deles um sistema, e quando o citavam sem saber exata-mente do que falavam. Numa discussão acabou por dizer: “Isto não tem sentido, a sombra é simplesmente todo o inconsciente”.

Acrescentou que tínhamos esquecido como essas coisas haviam sido descobertas e vividas pelo indivíduo e que sempre é preciso pensar na condição atual do paciente. Se vocês tentarem explicar alguns processos não aparentes e inconscientes a alguém, que não conhece nada de psicologia e inicia uma análise, isto é a sombra para ele. Assim numa primeira etapa de abordagem do inconsciente, a sombra é simplesmente um nome “mitológico”, aquilo que me diz respeito mas que não posso conhecer diretamente.

Então posso afirmar ao leitor que a princesa pode estar na sombra e a bruxa na luz, ambas na sombra ou na luz, a bruxa na luz e a princesa na sombra. Reiterando que a sombra não está preenchida somente por aspectos sombrios ou mórbidos.

Pense no caso de uma jovem que se acha pouco atraente, no entando, a maioria das pessoas que a conhecem ou passam por ela pensam o contrário. Neste caso o conceito de normalidade – pelo menos no aspecto estatístico – indica que esta qualidade – ser atraente para mairia das pessoas é uma qualidade – está na sombra para a jovem. Desta forma através da psicoterapia a mesma poderá conhecer este aspecto, aumentar sua autoestima e ser mais autoconfiante (Roberto Lazaro Silveira, 2010).

Somente quando começamos a penetrar a esfera da sombra da personalidade, investigando seus diferentes aspectos, é que surge nos sonhos, depois de um certo tempo, uma personificação do inconsciente, do mesmo sexo que o sonhador. Mas depois o paciente descobrirá que ainda existe, nessa área desconhecida, um outro tipo de reação chamada anima (ou ânimus) representando sentimentos, estados de espírito, ideias etc. Por razoes práticas, Jung não achou necessário se estender além destas três etapas.

Muitas pessoas permanecem num impasse quando o problema não é apenas questão de teoria, mas de prática. Integrar a anima ou o ânimus é uma obra de arte e ninguém pode se vangloriar de tê-lo conseguido. Por isso, quando falamos de sombra devemos ter bem explícita a situação pessoal do indivíduo em questão, inclusive seu nível específico de consciência e percepção interior. Assim, numa primeira fase, podemos dizer que a sombra é tudo aquilo que faz parte da pessoa mas que ela desconhece.

Geralmente, quando investigamos a sombra, descobrimos que consiste em parte de elementos pessoais e em parte de elementos coletivos. Praticamente, nesse primeiro contato, a sombra é apenas um conglomerado de aspectos em que não conseguimos definir o que é pessoal e o que é coletivo. Exemplificando, digamos que uma pessoa tem pais de diferentes temperamentos, dos quais herdou algumas características que, por assim dizer, não se misturam bem quimicamente.

Por exemplo, uma vez tive uma ana-lisanda que herdou do pai um temperamento inflamável e brutal, e da mãe uma grande suscetibilidade. Como poderia ela ser as duas pessoas ao mesmo tempo? Se alguém a contrariasse ela se defrontava com duas reações opostas. Existem possibilidades opostas numa criança que não se harmonizam entre si. Geralmente, no decorrer de seu desenvolvimento, uma escolha é feita, de modo que um lado fica mais ou menos consolidado. Sempre escolhendo uma qualidade e preferindo uma determinada atividade em detrimento de outra, através da educação e dos hábitos, estas acabam se tornando uma “segunda natureza”; as outras qualidades continuam a existir, só que debaixo do pano.

A sombra se constrói a partir dessas qualidades reprimidas, não aceitas ou não admitidas porque incompatíveis com as que foram escolhidas. É relativamente fácil reconhecer esses elementos e é isto que chamamos “tornar a sombra consciente”, através de uma certa dose de insight, com a ajuda de sonhos e assim por diante — e é normalmente nesse ponto que a análise é interrompida.

Mas isto não significa o término de um trabalho, pois daí vem um problema muito mais difícil, diante do qual a maioria das pessoas encontra grande dificuldade: elas sabem o que é a sua sombra mas não conseguem expressá-la ou integrá-la em suas vidas. Naturalmente a mudança não agrada às pessoas de seu meio, pois isto significa que elas também têm que se readaptar. Uma família ficaria simplesmente furiosa se um membro até então doce e cordato de repente se tornasse agressivo, dizendo Não às suas ordens. Isso conduz a muitas críticas e o ego da pessoa em ques- tão também se ressente da situação. A integração da sombra poderá não dar certo e o problema chegará então a um impasse.

É um ato de grande coragem enfrentar e aceitar uma qualidade que não nos é agradável, que se escolheu esconder por muitos anos. Mas se a pessoa decidir não aceitá-la, acabará sendo apanhada pelas costas. Uma parte do problema é enxergar e admitir a existência da sombra, constatar que alguma coisa acon- teceu, que algo irrompeu; mas o grande problema ético surge quando se decide expressar a sombra consciente-mente. Isso requer grande cuidado e reflexão, para que não se produza uma reação perturbadora.

Gostaria de lhes dar um exemplo disso. Pessoas do tipo sentimento estão sempre prontas a serem cruéis e mesquinhas ao julgar seus amigos. Por um lado se sentem bem com as pessoas mas, por dentro e por trás, são capazes de ter pensamentos e julgamentos extremamente negativos a seu respeito. Outro dia eu estava num hotel com uma pessoa do tipo sentimento. Eu sou do tipo pensamento e acontece que estava com uma tremenda pressa quando a avistei, de modo que apenas a cumprimentei rapidamente.

Daí ela achou que eu a odiava, que estava furiosa com ela e que não queria passar o dia em sua companhia, que eu era uma pessoa fria e insociável etc. De repente o tipo sentimento passou a ter pensamentos negativos, com toda uma explicação para o fato de eu tê-la cumprimentado apressadamente. No estágio inicial a sombra é todo o inconsciente — um acúmulo de emoções, julgamentos e assim por diante.

Vocês poderiam achar que minha amiga foi envolvida pelo pensamento negativo do ânimus — mas o que aconteceu realmente foi uma explosão de pensamentos negativos (neste caso a função inferior), emoção brutal (sombra) e alguns julgamentos destrutivos (neste caso o ânimus). Se estudarem essas explosões negativas, vocês poderão distinguir entre a figura que chamamos de sombra e a faculdade de julgamento que na mulher chamamos de ânimus. Depois de um certo tempo as pessoas descobrem essas qualidades negativas em si mesmas e conseguem não apenas vê-las mas expressá-las, o que significa abdicar de certas idealizações e padrões.

Isso acarreta sérias considerações e uma boa dose de reflexão, caso a pessoa em questão não queira ter uma ação destrutiva sobre as coisas que a cercam. Então, visto que podemos descobrir nos sonhos elementos que parecem não ser pessoais, dizemos que a sombra consiste em parte de material pessoal e em parte de material impessoal e coletivo.

Referência
VON FRANZ, Marie-Louise. A Sombra e o Mal nos Contos de Fada. São Paulo: Paulus 2002. 3ª Ed.

 

Anima e Animus

por: Roberto Lazaro Silveira

Para auxiliar na compreenssão destes arquétipos explorados pela psicologia arquetípica vale a pena uma leitura no seguinte trecho do evangélio apócrifo de Tomé, veja,

“Quando você fizer de dois um, quando você fizer o interior como o exterior, quando você fizer um do alto e do baixo, quando você fizer do masculino e do feminino um único, a fim de que o masculino não seja apenas um macho e o feminino apenas uma fêmea, então você terá olhos nos seus olhos, você terá mãos nas suas mãos, você terá pés nos seus pés e você entrará no reino do espírito.”

A chave para entrar no reino do espírito, então, está na integração do masculino com o feminino. Após esta introdução vale a pena observar uma pequena fração do conceito de anima e animus para Jung:

“O arquétipo da anima (termo em latim para alma),constitui o lado feminino no homem, e o arquétipo do animus(termo em latim para mente ou espírito), constitui o lado masculino na psique da mulher. Ambos os sexos possuem aspectos do sexo oposto, não só biologicamente, através dos hormônios e genes, como também, psicologicamente através de sentimentos e atitudes.”

Sendo a persona a face externa da psique, a face interna, a formar o equilíbrio são os arquétipos da anima e animus. O homem traz consigo, como herança, a imagem de mulher. Não a imagem de uma ou de outra mulher especificamente, mas sim uma imagem arquetípica, ou seja, formada ao longo da existência humana e sedimentada através das experiências masculinas com o sexo oposto.

Cada mulher, por sua vez, desenvolveu seu complexo de animus através das experiências com o homem durante toda a evolução da humanidade.

Quando observamos algum distúrbio de comportamento promovidos pela anima quando em estado inconsciente pode fazer com que o homem, numa possessão extrema, tenha comportamento tipicamente feminino, como alterações repentinas de humor, falta de controle emocional e até conversões e ataques do tipo histérico, sim é possível.

Em seu aspecto positivo a anima, quando reconhecida e integrada à consciência, servirá como guia e despertará, no homem o desejo de união e de vínculo com o feminino e com a vida. A anima será a “mensageira do inconsciente” tal como o deus Hermes da mitologia Grega.

A valorização social do comportamento viril no homem, desde criança, e o desencorajamento do comportamento mais agressivo nas mulheres, poderá provocar uma anima ou animus subdesenvolvidos e potencialmente carregados de energia, atuando no inconsciente como fonte de energia psiquica podendo ser sublimada como no caso das artes por exemplo ou então tornar-se destrutiva.

Um animus atuando totalmente inconsciente poderá se manifestar de maneira também negativa, provocando alterações no comportamento e sentimentos da mulher. Segundo Jung: “em sua primeira forma inconsciente o animus é uma instância que engendra opiniões espontâneas, não premeditadas; exerce influência dominante sobre a vida emocional da mulher.”

O animus e a anima devidamente reconhecidos e integrados ao ego, contribuirão para a maturidade do psiquismo através da individuação. Jung salienta que o trabalho de integração da anima é tarefa difícil. Diz ele: “Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é obra-prima.”

A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais e morais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham foram de seu âmbito psíquico, sob a forma de projeções.”

Anima e animus são responsáveis pelas qualidades das relações com pessoas do sexo oposto. Enquanto inconscientes, o contato com estes arquétipos são feitos em forma de projeções.

O homem, quando se apaixona por uma mulher, está projetando a imagem da mulher que ele tem internalizada. É fato que a pessoa que recebe a projeção é portadora, como dizia Jung, de um “recipiente” que a aceita perfeitamente, como a união entre antígeno e anticorpo ou chave e fechadura – ocupam o mesmo arquétipo por sinal.

O ato de apaixonar-se e decepcionar-se, nada mais é do que projeção e retirada da projeção do objeto externo. Geralmente o que se ouve é que a pessoa amada deixou de ser aquela por quem ele se apaixonou, quando na verdade ela nunca foi, só serviu como suporte da projeção de seus próprios conteúdos internos.

Para o homem a figura materna, geralmente a mãe biológica, é o primeiro objeto a receber a projeção da anima, ainda quando menino, o que se dá inconscientemente.

Depois, com o crescimento e sua saída do ninho, o filho vai, aos poucos, retirando esta projeção e lançando-a a outras mulheres que continua sendo um processo inconsciente.

A qualidade, do relacionamento mãe-filho, será essencial e determinará a qualidade dos próximos relacionamentos, com outras mulheres quando inconscientemente sombria e projetada.

Ressalta Jung: “Para o filho, a anima oculta-se no poder dominador da mãe e a ligação sentimental com ela dura às vezes a vida inteira, prejudicando gravemente o destino do homem ou, inversamente, animando a sua coragem para os atos mais arrojados.”

Projeção para Jung é um processo inconsciente automático, através do qual um conteúdo inconsciente para o sujeito é transferido para um objeto, fazendo com que este conteúdo pareça pertencer ao objeto.

A projeção cessa no momento em que se torna consciente, isto é, ao ser constatado que o conteúdo pertence ao sujeito.

Miniaturas disponíveis para montagem do cenário.

Projeta-se o que está na sombra, ou seja, é a sombra projetada, quando entramos em contato com o complexo constelado no núcleo do arquétipo chamado sombra nosso eixo ego-self caminha rumo a individuação.

Observe abaixo o cenário de um Jogo de Areia que demonstra aspectos da anima:

“Observamos acima um homem se deparando com os diversos aspectos de sua anima. Da esquerda para a direita temos na imagem da sereia a simbolização da anima sensual, mas que não pode se relacionar pois é metade peixe, na figura de Iemanjá vemos a anima espiritual, em Cinderela a representação da anima pura e, na dançarina temos a possibilidade da integração dos três aspectos anteriores” (fonte: http://jogodeareia.com.br/psicologia-analitica/anima-e-animus/).

Compare com o seguinte cenário abaixo revelando aspectos de possessão pelo animus:

“No cenário acima a paciente demonstra ter como único valor em sua vida o trabalho e apresenta grande dificuldade em se relacionar afetivamente. No quadrante inferior esquerdo vemos figuras caricatas de mulheres executivas com características masculinizadas, no quadrante inferior direito um guerreiro, no superior direito um homem primitivo, no centro vemos simbolizadas a possibilidade de transformação e cura do animus, representada pelas figuras do xamã, padre, cozinheiro e do médico. E por fim sinalizando um bom prognóstico, no quadrante superior esquerdo surge a figura feminina elaborada com um bebê de colo” (fonte: http://jogodeareia.com.br/psicologia-analitica/anima-e-animus/).

Para melhor entendimento do texto acima leia sobre: Persona, Sombra, complexos e arquétipos, eixo ego-self, individuação, jogo de areia, deus Hermes e Mitologia Grega em breve disponíveis neste site.