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A mitologia, a jornada do herói e o ritual da loucura

por: Roberto Lazaro Silveira

Este site tem recebido alguns comentários afirmando que o mesmo está “melhor do que muita sala de aula”. Agradeço muito por este tipo de comentário e fico motivado a escrever muito mais, apresentando-lhes leituras que realmente fogem da sala de aula cada vez mais Marxista e mais distante da psicologia. Dizem que o pior cego é o que não quer enxergar… mas, também dizem: Os cães ladram, mas a caravana não para.

Então textos como este copiado do livro A Tempestuosa Busca do Ser, escrito por Grof e Esposa, e colado abaixo, geralmente não serão apresentados na sala de aula por serem muito bons para o basicão acadêmico, o ciclo básico! Talvez seja por isto que este nosso espaço tornou-se interessante segundo algumas dezenas de comentários!

Quem são, resumidamente, os Grofs que escreveram o livro de onde foi copiado o texto abaixo? Quem é Stanislav Grof, M.D., Ph.D. que geralmente não aparece na vida acadêmica do estudante de psicologia apresentado pelos docentes? O mesmo desenvolveu um tipo de respiração que retira os filtros da mente e proporcionam um econtro com o interior de forma pura, de forma semelhante à ação do LSD, mas, sem os efeitos “químicos colaterais”.

Stanislav Grof, psiquiatra tcheco, nascido em 1 de Julho de 1931 na cidade de Praga, desenvolveu nos EUA pesquisas sobre os estados alterados de consciência (EAC), através de experiências com o ácido lisérgico, LSD, como meio de atingir esses estados.

Segundo o médico, quando pacientes atingiam outros estados de consciência, emergia-se o subconsciente de maneira intensa, importante para a recuperação da saúde mental, visto que experiências traumáticas e demais bagagens emocionais desfavoráveis poderiam ser trabalhadas de forma mais incisiva e direta. Ao término de sua experiência pessoal com o composto químico, o paciente era capaz de ter uma complexa cadeia de novas compreensões pessoais, “insights”, que ajudavam na sua recuperação.

Mais tarde desenvolveu uma técnica chamada Respiração Holotrópica, através da qual é possível atingir estados de consciência semelhantes através da hiperventilação, como altenativa ao uso clínico do LSD, tornado ilegal.

Alguns Livros do Grof publicados em português:
- Variedades das experiências transpessoais: observações da psicoterapia com LSD. in. WEILL, Pierre (org.) Experiência cósmica e psicose. vol 5 / IV Pequeno tratado de psicologia transpessoal. RJ, Vozes, 1978
- Além do Cérebro: Nascimento, Morte e Transcedência em Psicoterapia. SP, McGraw-Hill Brasil, 1987
- com GROF, Christina. Emergência Espiritual. São Paulo: Cultrix, 1989.
- com BENNETT, E. Hal Zina. A Mente Holotrópica: Novos Conhecimentos Sobre a Psicologia e Pesquisa da Consciência. (Coleção Arco do Tempo, Vol. 8). RJ, Rocco, 1994
- Psicologia do futuro. São Paulo: Heresis, 2000.
- Quando o impossível acontece. São Paulo: Heresis, 2007.
- com GROF, Christina. Respiração Holotrópica: uma nova abordagem de autoexploração e terapia. Rio de Janeiro: Numina, 2011. etc.

Site do Grof: http://www.stanislavgrof.com/

O texto abaixo exige uma certa leitura simbólica ao mesmo tempo em que apresenta este tipo de leitura à você que busca algo além do ciclo básico, boa leitura.

“Nada é superior a esses mistérios. Eles têm adocicado o nosso caráter e suavizado nossos costumes; fizeram-nos passar da condição de selvagens para a de verdadeiros seres humanos. Eles não apenas nos mostraram o modo de viver prazerosamente, mas nos ensinaram a morrer com esperança”.
Cícero, De Legibus

Os mistérios antigos da morte e do renascimento proporcionaram um outro contexto social importante para as experiências de transformação. Nelas os iniciandos se identificam com várias figuras mitológicas que morreram e foram trazidas de volta à vida.

A função da mitologia na psique e na sociedade

É comum pensar que os mitos são produtos do intelecto humano e da imaginação. Nossos conceitos são radicalmente diferentes; além das nossas experiências pessoais nessa área, fomos fortemente influenciados pelo trabalho de Carl Gustav Jung e, mais especificamente, por muitos anos de amizade íntima com o mitólogo Joseph Campbell. O trabalho desses dois pensadores seminais causou uma revolução conceitual para o conhecimento da Mitologia.

De acordo com Jung e Campbell, os mitos não são histórias fictícias sobre aventuras de personagens imaginários em países que não existem e, assim, produtos arbitrários da fantasia individual humana. Eles originam-se no inconsciente coletivo da humanidade e são manifestações dos princípios primordiais de organização da psique e do cosmos que Jung chamou de arquétipos.

Os arquétipos se expressam através da psique humana e de seus processos mais profundos, mas não nascem da mente humana e não são produtos dela. São, de certo modo, ordenados para ela e funcionam conforme seus princípios predominantes. De acordo com Jung, determinados arquétipos poderosos podem influenciar até mesmo eventos históricos e o comportamento de uma cultura específica.

O “inconsciente coletivo”, nome dado por Jung ao lugar onde eles residem, representam uma parte da herança cultural de toda a humanidade, ao longo dos anos. Na Mitologia, os temas arquetípicos básicos, em sua forma mais geral e abstrata, demonstram uma distribuição universal.

Em culturas diferentes e em vários períodos da história, uma pessoa pode encontrar variações específicas desses motivos mitológicos básicos. Um arquétipo universal dos mais representativos é, por exemplo, a Grande Mãe Divina; em várias culturas, essa figura toma a forma de uma mãe divina específica, como Ísis, a Virgem Maria, Kybele ou Káli. Da mesma forma, os conceitos de céu, paraíso e inferno podem ser encontrados em muitas culturas do mundo, mas a forma específica desses domínios arquetípicos varia de um caso para outro.

O Herói de Mil Faces

Em 1948, depois de muitos anos de estudo sistemático das mitologias de várias culturas do mundo, Joseph Campbell publicou seu livro pioneiro, The Hero with a Thousand Faces, obra-prima que nas décadas seguintes teve uma profunda influência sobre um grande número de pensadores de diferentes áreas. Analisando uma ampla gama de mitos de várias partes do mundo, Campbell percebeu que todos pareciam conter variações de uma fórmula arquetípica universal, que ele chamou de monomito.

Era a história do herói, masculino ou feminino, que deixa sua casa e, depois de aventuras fantásticas, retorna como um ser divino. Campbell descobriu que o arquétipo da jornada do herói tem, tipicamente, três fases, que são semelhantes àquelas que descrevemos anteriormente como seqüências características em ritos tradicionais de passagem: separação, iniciação e retorno.

O herói deixa o solo familiar ou é forçadamente separado dele por uma força exterior, é transformado através de uma série de provações e aventuras extraordinárias e, finalmente, é de novo incorporado em sua sociedade de origem com um novo papel.

Nas próprias palavras de Campbell, a fórmula básica para a jornada do herói pode ser resumida como segue: Um herói se arrisca para fora do mundo do dia comum indo a uma região de maravilha sobrenatural: forças fabulosas são aí encontradas e uma vitória decisiva se confirma: o herói volta dessa aventura misteriosa com poder para fazer o bem ao próximo.

O intelecto inquiridor e incisivo de Campbell não estava satisfeito com o reconhecimento da universalidade desse mito no tempo e no espaço. Sua curiosidade o levou a se perguntar o que faz esse mito universal. Por que o tema da jornada do herói apela para as culturas de todos os tempos e países, se até diferem em outros pormenores?

E sua resposta tem a simplicidade e a lógica inexorável de todas as descobertas brilhantes: o monomito da jornada do herói é uma metáfora para as experiências interiores durante uma crise de transformação, descrevendo seus territórios experimentais. Do mesmo modo que a crise de transformação é relevante, assim é o mito.

A emergência espiritual como uma jornada do herói
O próprio Campbell estava consciente do fato de que as aventuras dos xamãs durante as crises de iniciação e dos neófitos durante os ritos de passagem eram exemplos peculiares da jornada heróica. Em 1968 ele encontrou o analista junguiano John Perry, que através dos anos fizera um extenso trabalho psicoterapêutico com clientes jovens que seriam tradicionalmente rotulados de psicóticos. No decorrer do seu trabalho, Perry não usara nenhum medicamento supressivo.

Como resultado do contato com Perry e com seu material, Campbell reconheceu as profundas semelhanças entre o simbolismo da jornada do herói e o das imagens que aparecem em muitas ocorrências espontâneas de estados incomuns de consciência, e estendeu a aplicação do monomito para incluir certas formas de psicoses. Um mito típico da jornada do herói começa quando a vida comum do protagonista é repentinamente interrompida pela intromissão de elementos mágicos por natureza e que pertencem a uma outra ordem de realidade.

Campbell se refere a esse convite para a aventura como um chamado. Em termos psicológicos, podemos pensar nisso como a emergência de elementos do inconsciente profundo, particularmente dos seus níveis arquetípicos para a consciência cotidiana. Se o heroi responde ao convite e aceita o desafio, embarca numa aventura que envolve visitas a territórios estranhos, encontro com animais fantásticos e super seres humanos, além de várias provações.

Depois do término triunfal da jornada, o herói volta para casa e vive uma vida íntegra e recompensadora como um ser divinizado — líder mundial, curandeiro, vidente ou mestre espiritual. Como o herói do monomito, a pessoa em emergência espiritual recebe um chamado. A película sutil que separa nossa vida diária do mundo espantoso da nossa mente inconsciente torna-se transparente e, finalmente, se rompe.

Os conteúdos profundos da psique que passam comumente despercebidos são lançados para a consciência na forma de imagens, emoções fortes e estranhos sentimentos físicos. Inicia- se uma incrível odisséia imaginária rumo às profundezas da psique. Como as histórias heróicas que conhecemos da Mitologia, isso envolve forças obscuras e monstros aterradores, perigos de todos os tipos e encontros com seres sobrenaturais, como também intervenções mágicas.

Quando os desafios dessa jornada interior são aceitos e conseguimos triunfar sobre os acontecimentos, as experiências tornam-se cada vez mais compensadoras e chegam a uma solução positiva. Isso inclui, em geral, um reconhecimento da natureza divina da pessoa e descobertas na ordem universal. As experiências de um encontro com os arquétipos da Grande Mãe Divina e do Pai Divino podem ajudar a pessoa a conseguir maior equilíbrio entre os aspectos masculino e feminino (yang e yin) da sua personalidade.

A pessoa pode ver claramente a concepção incorreta e errônea do passado e perceber como uma vida mais completa e produtiva pode ser possível no futuro. Uma vez que se permite que a experiência alcance uma conclusão natural e que um apoio e uma validação adequados sejam acessíveis, essa pessoa pode voltar para a vida radicalmente transformada.

Muitas dificuldades emocionais e psicossomáticas têm sido superadas e eliminadas no processo de transformação; a auto-imagem e a auto- aceitação são notavelmente incrementadas e a habilidade de gozar a vida aumenta. Pode haver uma intensificação significativa da intuição e da capacidade de trabalhar com outras pessoas — como conselheiro ou guia — nos momentos de crise emocional.

Tudo isso pode resultar numa forte necessidade de incluir o elemento de serviço aos outros como um componente importante da sua vida. Embora os resultados possam não ser tão gloriosos como os da jornada mitológica do herói, são de um tipo semelhante e a metáfora é totalmente apropriada. No entanto, há muitos casos em que algo que começou como uma aventura visionária não chega a um final feliz. Em alguns casos, a pessoa pode recusar o chamado e decidir agarrar-se à realidade comum com seus velhos problemas e limitações.

Uma outra possibilidade é uma falha na complementação da jornada; nesse caso, a pessoa penetra no abismo do inconsciente e é incapaz de voltar a operar plenamente na realidade comum. Este, infelizmente, é o destino de muitas pessoas na nossa cultura que têm que enfrentar a emergência espiritual sem a compreensão e o apoio adequados.

A morte e o renascimento de deuses e heróis

Um tema particularmente forte e que reaparece com uma freqüência marcante na mitologia da jornada do herói é o encontro com a morte e o renascimento subseqüente. As mitologias de todos os tempos e países incluem histórias extraordinárias sobre heróis e heroínas que desceram ao reino da morte e, tendo vencido obstáculos jamais sonhados, voltaram à Terra dotados de poderes especiais.

Os xamãs legendários de várias culturas, os gêmeos do épico maia Popol Vuh e os heróis gregos Ulisses e Hércules são exemplos evidentes desses personagens míticos. São igualmente freqüentes os contos sobre deuses, semideuses e heróis que morreram ou foram mortos e depois voltaram à vida com uma nova função, exaltados e imortalizados pela experiência de morte e renascimento.

O tema central da religião judeu- cristã — a crucificação e a ressurreição de Jesus — é apenas um exemplo. De uma forma menos simbólica, o mesmo motivo às vezes é representado como a experiência de ser devorado por um monstro aterrador e ser, então, regurgitado ou realizar uma fuga milagrosa. Os exemplos aqui variam do herói grego Jasão e do herói bíblico Jonas a Santa Margarida, que foi presumivelmente engolida por um dragão e salva por um milagre.

Considerando quão universais e importantes são esses temas na mitologia mundial, é interessante perceber que seqüências de morte e renascimento também estão entre as experiências mais freqüentes observadas em estados incomuns de consciência, induzidos por vários meios ou ocorrendo espontaneamente. Elas desempenham um papel extremamente importante nos processos de transformação psicológica e de abertura espiritual. Muitas culturas antigas eram bem conscientes desse fato e desenvolveram procedimentos de iniciação intimamente ligados aos mitos de morte e renascimento.

Os mistérios da morte e do renascimento Em muitas partes do mundo, os mitos da morte e do renascimento serviram como base ideológica para os sagrados mistérios — impressionantes eventos ritualísticos em que os aprendizes vivenciavam a morte e o renascimento psicológico. Os meios para induzir esses estados alterados de consciência são semelhantes aos usados nos procedimentos xamânicos e ritos de passagem: batucadas, cantilenas e danças; alteração do ritmo da respiração; exposição ao desgaste físico e à dor e situações de risco de vida aparentes ou reais.

Entre os recursos mais potentes empregados para esse fim estão várias plantas com propriedades psicoativadoras. Em alguns casos, o processo de alteração da mente nesses rituais não é conhecido: ou foi mantido em segredo ou a informação se perdeu com o passar do tempo.

As experiências, freqüentemente aterradoras e confusas aplicadas aos iniciandos, eram vistas como oportunidades de fazer contato com divindades e com os reinos sagrados; eram vistas como necessárias, desejáveis e essencialmente curativas. Há até mesmo indicações de que a exposição voluntária a esses estados extremos da mente era considerada uma prevenção e uma proteção contra a verdadeira insanidade.

Isso pode ser explicado pelo mito grego de Dioniso, que convidou os cidadãos de Tebas a juntar-se a ele na Dança Menor, o êxtase do Bacanal — um ritual orgíaco que envolvia danças selvagens e o desencadeamento de várias emoções e energias instintivas. Prometeu-lhes que esse evento os levaria a lugares que nunca sonharam ser possível. Quando recusavam, forçava-os à Dança Maior de Dioniso, um período perigoso de loucura no qual confundiam seu príncipe com um animal selvagem e o matavam.

Como esse mito popular indica, os antigos gregos eram conscientes do fato de que o perigo nos força a nos refugiarmos na nossa psique, que precisa de uma oportunidade para se expressar no contexto apropriado. Os eventos psicológicos poderosos que os iniciandos encontraram nos mistérios de morte e renascimento tinham, indubitavelmente, um potencial marcante de cura e de transformação.

Então, podemos nos referir ao testemunho de dois gigantes da antiga filosofia grega, Platão e Aristóteles. (O fato de que esse testemunho vem da Grécia, o berço da civilização ocidental, não é de particular relevância aqui, já que é muito fácil para os ocidentais ignorar a evidência do xamanismo ou dos ritos de passagem, vindos como vêm de culturas estranhas à nossa tradição.)

Em seu diálogo intitulado Fedra, Platão distinguiu dois tipos de loucura, uma resultando das doenças humanas e outra da intervenção divina — como poderíamos reformular em termos de psicologia moderna —, influências arquetípicas originadas no inconsciente coletivo.

Na variação mais recente, ele adicionou mais quatro tipos diferenciados, atribuindo-lhes deuses específicos: a loucura do amante a Afrodite e Eros; a da ruptura profética a Apolo; a da inspiração artística às Musas; e a do êxtase ritualístico a Dioniso. Platão fez uma descrição nítida do potencial terapêutico da loucura ritualista, usando como exemplo uma variação menos conhecida dos mistérios gregos, os ritos coribânticos. De acordo com ele, a dança selvagem para flautas e tambores, culminando com uma liberação emocional explosiva, resultava num estado de profundo relaxamento e tranqüilidade.

O grande discípulo de Platão, Aristóteles, foi o autor da primeira afirmação explícita de que a experiência e a total liberação de emoções reprimidas que ele chamou de catharsis (significando literalmente “purificação” ou “purgação”), representava um tratamento efetivo de desordens mentais. Também expressou sua crença de que os mistérios gregos forneciam um forte contexto para esse processo.

De acordo com Aristóteles, pelo uso do vinho, de afrodisíacos e de música, os iniciandos vivenciavam um despertar extraordinário de paixões seguido por uma catarse de cura. De acordo com a tese básica dos membros do culto ao oráculo, uma das escolas místicas mais importantes da época, Aristóteles estava convencido de que o caos e a exaltação dos mistérios eram proveitosos para a ordem final.

Essa compreensão do relacionamento entre estados emocionais intensos e cura está muito próxima do conceito de emergência espiritual e das estratégias de tratamento correspondentes. Os sintomas extraordinários não são necessariamente indicativos de patologia; em determinados contextos, são recebidos como manifestações de vários conteúdos e forças perturbadoras que preexistiam no inconsciente. Desse ponto de vista, trazendo-os para a consciência e confrontando-os, são considerados agradáveis e com poder de cura.

A popularidade e a ampla distribuição dos mistérios no mundo antigo indicam que os participantes consideravam-nos psicologicamente relevantes e benéficos. Os famosos mistérios de Elêusis, perto de Atenas, foram realizados a cada cinco anos sem interrupção por um período de quase dois mil anos. Gostaríamos de mencionar brevemente os mistérios mais importantes de morte e de renascimento que eram dramatizados nos tempos antigos em várias partes do mundo.

Os temas arquetípicos, representados nesses rituais, geralmente emergem nas experiências de ocidentais modernos que estão passando por uma profunda terapia experiencial ou por emergências espirituais. Para essas pessoas e para aqueles que as estão assistindo em seu processo, o conhecimento da Mitologia encontrado durante a jornada interior pode fornecer diretrizes importantes. Entre os mistérios mais antigos de morte e de renascimento estão os ritos babilônicos e assírios de Ishtar e de Tamuz.

São baseados no mito da Deusa-Mãe Ishtar, e sua descida aos infernos, o reino da morte, governado pela terrível deusa Ereshkigal, em busca de um elixir que poderia restituir a vida a seu filho morto e seu marido, Tamuz. De acordo com a interpretação esotérica, o mito da jornada de Ishtar ao inferno e seu retorno com êxito simbolizam o aprisionamento da consciência na matéria e a sua libertação, através do efeito libertador de ensinamentos e de processos espirituais secretos. Optando por passar por uma provação semelhante à de Ishtar, os iniciandos podem alcançar uma liberação espiritual.

Nos templos de Ísis e de Osíris, no antigo Egito, iniciandos se sujeitavam a provações complexas sob a liderança de venerandos sacerdotes a fim de superar o medo da morte e obter acesso ao conhecimento esotérico sobre o universo e a natureza humana. Durante esse ritual de iniciação, os aprendizes passavam por uma identificação com o deus Osíris, que de acordo com o mito subjacente a esse mistério fora morto e esquartejado pelo seu maldoso irmão, Set, para depois ser trazido de volta à vida por suas irmãs, Ísis e Néftis.

Na Grécia antiga e nos países vizinhos, as religiões de mistérios e os ritos sagrados eram abundantes. Os mistérios eleusianos foram baseados numa interpretação esotérica do mito sobre a deusa Deméter e sua irmã Perséfone. Perséfone foi raptada por Plutão, o deus do inferno, mas foi libertada pela intervenção de Zeus sob a condição de que ela voltasse ao reino de Plutão por um trimestre a cada ano.

Esse mito, comumente considerado uma alegoria sobre o crescimento cíclico das plantas durante as estações do ano, tornou-se, pelos iniciandos eleusianos, um símbolo para as batalhas espirituais da alma, periodicamente aprisionada na matéria e libertada. Outros exemplos de mistérios gregos incluem o culto órfico, que gira em torno da lenda do poeta endeusado Orfeu, o incomparável músico e cantor que visitou o inferno para libertar sua amada Eurídice do cativeiro e da morte.

Os ritos dionisíacos ou a bacanália foram baseados na história mitológica do jovem Dioniso, que foi desmembrado pelos Titãs e, depois, ressuscitado quando Palas Atena resgatou o seu coração. Nos ritos dionisíacos, os iniciandos passam por uma identificação com o deus assassinado e renascido, através de danças orgíacas, de corridas por regiões silvestres e da ingestão de bebidas tóxicas e da carne crua de animais. Outro mito famoso sobre um deus agonizante era a história de Adônis.

Sua mãe, Smirna, havia sido transformada pelos deuses numa árvore de mirra. Depois um javali selvagem facilitou seu nascimento da árvore, Adônis foi destinado passar um terço de cada ano com Perséfone e o resto do ano com Afrodite. Os mistérios inspirados por esse mito eram comemorados todos os anos em muitas partes do Egito, da Fenícia e de Biblos. Os mistérios frígios, intimamente ligados aos relatados acima, eram celebrados em nome de Átis, divindade que castrou si mesma e que foi ressuscitada pela Grande Deusa-Mãe Cibele.

Esses exemplos não são, de modo algum, uma narração exaustiva de mistérios antigos e de religiões de mistérios. Procedimentos semelhantes que giram ao redor da morte e do renascimento podem ser encontrados na religião mitraica, na tradição nórdica e na cultura maia pré-colombiana; também estão presentes como elementos de iniciação a várias ordens e sociedades secretas e em muitos outros contextos.

A realeza sagrada e a notável representação real da morte e do renascimento Antes de deixar o campo do mito e dos rituais, gostaríamos de fazer uma breve referência a uma fase do desenvolvimento cultural que o trabalho de John Perry tornou particularmente relevante para o estudo da emergência espiritual. Na evolução das grandes culturas do mundo, mesmo aquelas que para o nosso melhor conhecimento não tiveram nenhum contato entre si, há um período que pode ser citado como a era da realeza sagrada ou, na terminologia de Perry, a “era arcaica do mito encarnado”.

Durante esse tempo, que coincide mais ou menos com o aparecimento das cidades, o rei era visto pela cultura como sendo literalmente a encarnação de um deus. Esse tipo de sociedade pode ser encontrada na história do Egito, da Mesopotâmia, de Israel, de Roma, da Grécia, das ilhas nórdicas, do Irã, da Índia e da América Central (os toltecas e os astecas).

Completamente independentes umas das outras, essas culturas celebravam primorosos festivais de Ano Novo, durante os quais um teatro ritualístico era representado, girando em torno da pessoa do rei e com certos temas-padrão. Depois que o local do ritual era estabelecido como o centro do mundo, seqüências dramáticas retratavam a morte do rei e a sua volta ao início dos tempos e « criação.

Isso era seguido pelo seu novo nascimento, por um casamento sagrado e pela sua apoteose como um herói messiânico. Tudo isso acontecia no contexto de um conflito cósmico que envolvia um dramático choque de oposições — luta entre as forças da luz e as das trevas e o confronto entre o bem e o mal.

Uma parte importante do teatro real era a inversão das polaridades sexuais, expressas pela participação de travestis. A representação simbólica terminava com a representação de um mundo renovado e de uma sociedade revitalizada. Esses rituais eram considerados de importância crucial para a existência e a estabilidade contínua do cosmos e da natureza e para a prosperidade da sociedade.

Durante o trabalho psicoterapêutico sistemático com clientes que estavam passando por episódios espontâneos de estados incomuns de consciência, Perry chegou a uma conclusão espantosa: muitos desses estados giravam em torno dos mesmos temas, como os festivais de Ano Novo descritos acima.

É um desafio crucial a visão desses estados como indícios de doença mental. Seus temas arquetípicos estão significativamente relacionados com a evolução do consciente numa escala coletiva e, se possível, também numa escala individual; isto é muito diferente do fato de que o seu conteúdo rico e complexo possa ser o produto da distorção dos processos mentais devido a uma debilitação patológica do cérebro.

Seqüências mitológicas extraordinárias retratando a morte, o renascimento e outros temas são extremamente freqüentes na psicoterapia experimental, assim como em episódios de emergência espiritual. Em estados incomuns de consciência, esse material mitológico emerge espontaneamente das profundezas da psique, sem nenhuma programação e, em geral, para surpresa de todos os envolvidos.

Imagens arquetípicas e cenas inteiras da mitologia de várias culturas ocorrem freqüentemente nas experiências de pessoas que não têm nenhum conhecimento intelectual das figuras míticas e dos temas que estão encontrando. Dioniso, Osíris e Odin, assim como Jesus Cristo, parecem residir na psique dos ocidentais modernos e estarem vivos nos estados incomuns de consciência.

Os legados espirituais das grandes religiões

Os demônios atacam, alguns atirando ao topo das montanhas a cor das chamas; alguns arrancando mastros de cobre e ferro e árvores pelas raízes; alguns jogando ao chão camelos e elefantes com olhos assustadores, cobras e répteis horríveis com olhares venenosos e outros demônios com cabeças de boi.

Confronto de Buda com Kama Mara,

The Lalitavistara Sutra

O estudo da história das grandes religiões do mundo e das suas escrituras sagradas é altamente relevante para o entendimento das emergências espirituais. Mesmo uma olhada superficial nesses materiais revela que todos os movimentos religiosos que delineiam a história humana foram inspirados e repetidamente revigorados por experiências imaginárias de realidades transpessoais.

As tradições místicas e as ordens monásticas de muitas religiões nos legaram cartografias dos estados mentais encontrados durante momentos críticos importantes da prática espiritual, incluindo várias armadilhas e vicissitudes.

As pessoas em emergência espiritual encontram muitas dessas mesmas dificuldades, e seu processo segue os mesmos estágios. Por esta razão, esses mapas representam guias importantes para as pessoas em crise de transformação e para aquelas e as assistem.

Em muitos casos, as experiências realmente envolvem as formas arquetípicas específicas de um determinado sistema religioso, como o hinduísmo, o budismo ou o misticismo cristão. Nas páginas seguintes, veremos algumas das cartografias que podem ser úteis, em especial para as pessoas que estão passando por uma emergência espiritual. (…)

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Desenvolvimento para Winnicott

por: Roberto Lazaro Silveira

Nascemos com uma tendência inata para amadurecer, para se integrar, entretanto, o germinar desta semente do desenvolvimento dependerá de um ambiente facilitador que forneça cuidados suficientemente bons, sendo que, no início, esse ambiente é representado pela mãe. É importante ressaltar que esses cuidados dependem da necessidade de cada criança, pois cada ser humano responderá ao ambiente de forma própria, apresentando, a cada momento, condições, potencialidades e dificuldades variadas.

Quando amadurecemos ou nos tornamos indivíduos conseguimos alcançar o desenvolvimento do que é potencialmente intrínseco, possíveis dificuldades da mãe em olhar para o filho como diferente dela, com capacidade de alcançar certa autonomia, podem tornar o ambiente não suficientemente bom para aquela criança amadurecer.

A mãe deve olhar para seu filho para suprir suas necessidade física, id est, é necessário que ela perceba como fazer para satisfazê-lo e possa reconhecê-lo em suas particularidades.

Trata-se, pois, de uma condição psicológica muito especial, de sensibilidade aumentada, que Winnicott chega a comparar a uma doença, uma dissociação, um estado esquizóide, que, no entanto, é considerado normal durante esse período.

Winnicott afirmou existir na base do complexo de sensações e sentimentos peculiares dessa fase, está um movimento regressivo da mãe na direcção de suas próprias experiências enquanto bebé e das memórias acumuladas ao longo da vida, concernentes ao cuidado e protecção de crianças.

Tão gradualmente como se instala, em condições normais, o estado de “preocupação materna primária” deve dissipar-se. Essas condições incluem a saúde física do bebé e da mãe, após um parto não traumático, uma amamentação tranquila e pouca interferência de elementos stressantes.

Após algumas semanas de intensa adaptação às necessidades do recém–nascido, este sinaliza que seu amadurecimento já o torna apto a suportar as falhas maternas.

A mãe suficientemente boa deve compreender esse movimento do bebé rumo à dependência relativa e a ele corresponder, permitindo-se falhas que abrirão espaço ao desenvolvimento.

De fato, na obra de Winnicott (1979/1983; 1988/2002) encontramos que a capacidade das mães em dedicar a seus filhos toda a atenção de que precisam, atendendo suas necessidades de alimentação, higiene, acalento ou no simples contacto sem actividades, cria condições para a manifestação do sentimento de unidade entre duas pessoas.

Da relação saudável que ocorre entre a mãe e o bebé, emergem os fundamentos da constituição da pessoa e do desenvolvimento emocional-afetivo da criança.

A capacidade da mãe em se identificar com seu filho permite-lhe satisfazer a função sintetizada por Winnicott na expressão holding. Ela é a base para o que gradativamente se transforma em um ser que experimenta a si mesmo.

A função do holding em termos psicológicos é fornecer apoio egóico, em particular na fase de dependência absoluta antes do aparecimento da integração do ego.

O holding inclui principalmente o segurar fisicamente o bebé, que é uma forma de amar; contudo, também se amplia a ponto de incluir a provisão ambiental total anterior ao conceito de viver com, isto é, da emergência do bebé como uma pessoa separada que se relaciona com outras pessoas separadas dele.

Winnicott (1979/1983) também coloca que a mãe, ao tocar seu bebé, manipulá-lo, aconchegá-lo, falar com ele, acaba promovendo um arranjo entre soma (o organismo considerado fisicamente) e psique e, principalmente ao olhá-lo, ela se oferece como espelho no qual o bebé pode se ver.

Na visão winnicottiana, já nos primórdios da existência, é fundamental para a constituição do self o modo como a mãe coloca o bebé no colo e o carrega; dá-se, assim, a continuidade entre o inato, a realidade psíquica e um esquema corporal pessoal.

O holding é necessário desde a dependência absoluta até a autonomia do bebé, ou seja, quando os espaços psíquicos entre este e sua mãe já estão perfeitamente distintos.
Winnicott (1976/1983), visando mostrar a pais leigos a importância do que eles faziam naturalmente, traz uma descrição mais concreta do que está envolvido no holding:
Protege da agressão fisiológica, leva em conta a sensibilidade cutânea do lactente – tacto, temperatura, sensibilidade auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade à queda (acção da gravidade) e a falta de conhecimento do lactente da existência de qualquer coisa que não seja ele mesmo.

Inclui a rotina completa do cuidado dia e noite, e não é o mesmo que com dois lactentes, porque é parte do lactente, e dois lactentes nunca são iguais. Segue também as mudanças instantâneas do dia-a-dia que fazem parte do crescimento e do desenvolvimento do lactente, tanto físico como psicológico (Winnicott, 1979/1983, p.48).

Em sua teoria, conforme colocado anteriormente, afirma que o “estado de preocupação materna primária” implica em uma regressão parcial por parte da mãe, a fim de identificar-se com o bebé e, assim, saber do que ele precisa, mas, ao mesmo tempo, ela mantém o seu lugar de adulta.

É, ainda, um estado temporário, pois o bebé naturalmente passará da “dependência absoluta” para a “dependência relativa”, o que é essencial para o seu amadurecimento.

A dependência absoluta refere-se ao fato de o bebé depender inteiramente da mãe para ser e para realizar sua tendência inata à integração em uma unidade.

À medida que a integração torna-se mais consistente, o amadurecimento exige que, vagarosamente, algo do mundo externo se misture à área de omnipotência do bebé. Ser capaz de adoptar um objecto transaccional já anuncia que esse processo está em curso e, a partir daí, algumas mudanças se insinuam.

O bebê está passando para a dependência relativa e pode se tornar consciente da necessidade dos detalhes do cuidado maternal e relacioná-los, numa dimensão crescente, a impulsos pessoais.

No início da passagem da dependência absoluta para a dependência relativa, os objectos transaccionais exercem a indispensável função de amparo, por substituírem a mãe que se desadapta e desilude o bebé. A transaccionalidade marca o início da desmistura, da quebra da unidade mãe-bebê.

Na progressão da dependência absoluta até a relativa, Winnicott (1988/2002) definiu três realizações principais: integração, personificação e início das relações objectivas.

É nesse período de dependência relativa que o bebé vive estados de integração e não integração, forma conceitos de eu e não – eu, mundo externo e interno, estágio de concernimento, podendo então seguir em seu amadurecimento, no que o autor denomina independência relativa ou rumo à independência.

Aqui, o bebé desenvolve meios para poder prescindir do cuidado maternal. Isto é conseguido mediante a acumulação de memórias de maternagem, da projecção de necessidades pessoais e da introjeção dos detalhes do cuidado maternal, com o desenvolvimento da confiança no ambiente.

É importante ressaltar que, segundo Winnicott, a independência nunca é absoluta.

O indivíduo sadio não se torna isolado, mas se relaciona com o ambiente de tal modo que pode se dizer que ambos se tornam interdependentes.

 

Algumas palavras utilizadas por Piaget em suas teorias

por: Roberto Lazaro Silveira

TERMOS PIAGETIANOS

- Abertura:
realização das possibilidades operativas de uma estrutura de comportamento (verbal, motora e mental).

- Acomodação:
reestruturação dos esquemas de assimilação. O novo conhecimento representa a acomodação.

- Adaptação:
movimento de equilíbrio contínuo entre a assimilação e a acomodação. O indivíduo modifica o meio e é também modificado por ele.

- Animismo:
concepção de objetos inanimados com vida ou intencionalidade. Por exemplo: quando a criança diz que “o carro do papai foi dormir na garagem”.

- Aprendizagem:
modificação da experiência resultante do comportamento.
No sentido restrito (específico) aprender que alguma coisa se chama “lua”, “macaco”.
No sentido amplo “aprender a estruturar todos os objetos no universo em sistemas hierárquicos de classificação” (Kamii, 1991: 22). É desenvolvimento.

- Assimilação:
incorporação da realidade aos esquemas de ação do indivíduo ou o processo em que o indivíduo transforma o meio para satisfação de suas necessidades. O conhecido (conhecimento anterior) representa a assimilação. Só há aprendizagem quando os esquemas de assimilação sofrem acomodação. Assimilação e acomodação são processos indissociáveis e complementares.

- Auto-regulação:
características que as estruturas tem de se ordenarem e organizarem a si mesmas.

- Causalidade:
interação entre objetos.
Como vínculo causal – é afirmar a relação entre antecedente e conseqüente como necessária (dado A . B é inevitável, não pode deixar de ser).
Como uma espécie particular de síntese, constituindo no fato de que a alguma coisa A, outra coisa completamente diferente, B, liga-se seguindo uma regra (no sentido lógico-matemático).

- Centração:
fixação da atenção em um só aspecto da totalidade, isto é, do objeto ou da situação (Ramozzi-Chiarottino, 1988: 37-43).

- Cibernética:
a ciência e a arte da auto-regulação.

- Condutismo, culturalismo ou behaviorismo:
teoria psicológica que sustenta que o desenvolvimento do comportamento humano é determinado pelas condições do meio em que o organismo está inserido. Esta teoria valoriza o meio ou a aprendizagem por condicionamento;

- Conservação:
uma invariante que permite a formação de novas estruturas.
“A invariância é a conservação. A estrutura é apenas um patamar: o funcionamento levará à formação de novas estruturas” (Lima, 1980: 56)
Pode ser observada na área:
Lógico-matemática: conservação dos números, etc.
Físicas: Substância, peso, volume, etc.
Espaciais: Medida, área, etc.

- Construtivismo:
o desenvolvimento da inteligência é como se fosse uma construção realizada pelo indivíduo.
“refere-se ao processo pelo qual o indivíduo desenvolve sua própria inteligência adaptativa e seu próprio conhecimento” (Kamii, 1991: 21).
“um construtivismo, com a elaboração contínua de operações e de novas estruturas. O problema consiste, pois, em compreender como se efetuam tais criações e por que, ainda que resultem construções não-pré-determinadas, elas podem acabar por se tornarem lógicamente necessárias” (Piaget apud Piattelli-Palmarini, 1983: 39).
… “é de natureza construtivista, isto é, sem pré-formação exógena (empirismo) ou endógena (inatismo) por contínuas ultrapassagens das elaborações sucessivas, o que do ponto de vista pedagógico leva incontestavelmente a dar ênfase nas atividades que favoreçam a espontaneidade na criança” (Piaget, 1908)

- Construtivismo seqüencial:
o desenvolvimento da inteligência faz-se por complexidade crescente, onde um estágio (nível) é resultante de outro anterior.

- Desequilíbrio:
é a ruptura do estado de equilíbrio do organismo e provoca a busca no sentido de condutas mais adaptadas ou adaptativas. Assim, educar seria propiciar situações (atividades) adequadas aos estágios de desenvolvimento, como também, provocadoras de conflito cognitivo, para novas adaptações (atividades de assimilação e acomodação). O que vale também simplesmente dizer que educar é desequilibrar o organismo (indivíduo).

- Desenvolvimento:
é o processo que busca atingir formas de equilíbrio cada vez melhores ou, em outras palavras, é um processo de equilibração sucessiva que tende a uma forma final, ou seja, a aquisição do pensamento operatório formal. Pode-se dizer ainda que é a construção de estruturas ou estratégias de comportamento. Gira em torno da atividade do organismo que pode ser motora, verbal e mental. É a evolução do indivíduo.

- Dinâmica de grupo:
“A expressão ‘dinâmica de grupo’ refere-se a vários tipos de atividades exercidas por treinadores sobre grupos humanos” (Lima, 1980: 73).

- Epistemologia:
(epistemo = conhecimento; e logia = estudo) estudo do conhecimento.

- Epistemologia genética:
estudo de como se passa de um conhecimento para outro conhecimento superior.

- Equilibração:
concepção global do processo de desenvolvimento e de seus resultados estruturais sucessivos. O processo de equilibração define as regras de transição que dirigem o movimento de um estágio a outro dentro do desenvolvimento (Azenha, 1993). Ou refere-se ao processo regulador interno de diferenciação e coordenação que tende sempre para uma melhor adaptação (Kamii, 1991: 30).

- Equilibração majorante:
mecanismo de evolução ou desenvolvimento do organismo. É o aumento do conhecimento.

- Esquema:
modelo de atividade que o organismo utiliza para incorporar o meio.

- Estágios:
patamares de desenvolvimento que se dá por sucessão.

- Estrutura:
um conjunto de elementos que se relacionam entre si. A modificação de um gera a modificação do outro. Ou ainda, “é um conjunto de elementos relacionados entre si de tal forma que não se podem definir ou caracterizar os elementos independentemente destas relações” (Ramozzi-Chiarottino, 1988: 13).

- Evolução:
processo de organização em níveis progressivamente superiores.

- Experiência:
contato do organismo com a realidade ou a interação do sujeito com o objeto.

- Função semiótica:
capacidade que o indivíduo tem de gerar imagens mentais de objetos ou ações.
“A função semiótica começa pela manipulação imitativa do objeto e prossegue na imitação interior ou diferida (imagem mental), na ausência do objeto. É a função semiótica que permite o pensamento”. (Lima, 1980: 102)

- Funcionamento:
capacidade que o organismo tem de adquirir determinada ordem na maneira de agir.

- Imagem mental:
é um produto da interiorização dos atos de inteligência. Constitui num decalque, não do prórpio objeto, mas das acomodações próprias da ação que incidem sobre o objeto. Cópia do objeto realizada através do sensório-motor. É a imagem criada na mente de um objeto ou ação distante.

- Inatismo:
teoria psicológica que sustenta que o desenvolvimento do comportamento humano dá-se a partir de condições internas do próprio organismo, como se este já trouxesse dentro de si as possibilidades de seu desenvolvimento. Esta teoria valoriza a maturação do organismo;

- Inovação:
reorganização em nível superior.

- Inteligência:
capacidade de adaptação do organismo a uma situação nova.
Ou, “a inteligência é uma adaptação” (Piaget, 1982).
Ou, “dizer que a inteligência é um caso particular da adaptação biológica é, pois, supor que ela é essencialmente uma organização e que sua função é a de estruturar o universo como o organismo estrutura o meio imediato” (Piaget, 1982).

- Interacionismo:
teoria psicológica que sustenta que o desenvolvimento do comportamento humano é uma construção resultante da relação do organismo com o meio em que está inserido. Esta teoria valoriza igualmente o organismo e o meio.

- Interesse:
sintoma da necessidade.

- Intuição:
é uma representação construída por meio de percepções interiorizadas e fixas e não chega ainda ao nível da operação. Ou, é um pensamento imaginado… incide sobre as configurações de conjunto e não mais sobre simples coleções sincréticas simbolizados por exemplares tipos.

- Jogo simbólico:
reprodução de situações já vividas pelo indivíduo através de imagens mentais.
(no jogo simbólico) “a representação é nítida e o significante diferenciado pode ser um gesto imitativo, porém acompanhado de objetos que vão se tornando simbólicos” (Piaget, Inhelder, 1989: 48).

- Liberdade:
estado de pleno funcionamento do organismo.

- Liderança:
permissão dada pelo grupo para que cada um de seus componentes utilize suas aptidões para comandar este grupo, quando a situação exigir, e ele seja o mais indicado para tal situação.

- Logicização:
processo de transformar o pensamento simbólico e intuitivo em pensamento operatório.

- Microssociologia:
área de estudo das relações de interação, de um indivíduo com os outros.

- Motivação:
sentimento de uma necessidade.

- Necessidade:
desequilíbrio na organização interna do organismo.

- Nominalismo:
“convicção de que os nomes (palavras) estão ligados, essencialmente, às coisas (pensamento pré-lógico)” (Lima, 1980: 134).

- Operação:
“ação interiorizada que alcançou as características do ‘grupo’ matemático (reversibilidade, associatividade, idfentidade, tautologia, etc.), devendo-se notar que o nível operatório é alcançado mediante reconstruções sucessivas de complexidade crescente (equilibração majorante)” (Lima, 1980: 151).
“As operações (…) são as ações escolhidas entre as mais gerais (…) interiorizáveis e reversíveis. Nunca isoladas, porém coordenáveis em sistemas de conjunto. Também não são próprias deste ou daquele indivíduo, são comuns a todos os indivíduos do mesmo nível mental e intervém não apenas nos raciocínios privados, senão também nas trocas cognitivas, visto que estas constituem ainda em reunir informações, colocá-las em relação ou correspondência, introduzir reciprocidade, o que volta a construir operações isomorfas às das que se serve cada indivíduo para si mesmo” (Piaget, Inhelder, 1989: 82).

- Pensamento:
interiorização da ação.

- Permanência do objeto:
quando o indivíduo pode conceber o objeto mesmo estando fora de seu alcance de visão.

- Psicologia genética:
estudo dos problemas psicológicos do ponto de vista do conhecimento.

- Reação circular:
ação qualquer que a criança executa por acaso provocando uma satisfação e, por isso, reproduz esta mesma ação.

- Realismo:
explicação que afirma a relação necessária entre o pensamento e a realidade.

- Reversibilidade:
quando a operação deixa de ter um sentido unidirecional. A reversibilidade seria a capacidade de voltar, de retorno ao ponto de partida. Aparece portanto como uma propriedade das ações do sujeito, possível de se exercerem em pensamento ou interiormente.
Lembramos que as operações nunca têm um sentido unidirecional; são reversíveis.

- Revolução:
salto de uma estrutura para outra.

- Revolução copernicana do eu:
no desenvolvimento mental da criança o eu deixa de ser o centro referencial da ação e do pensamento para colocar-se como um indivíduo entre os demais.

- Socialização:
a combinação de indivíduos para formarem estruturas sociais ou um fenômeno de combinação de novas formas de relações individuais.

- Transformação:
processo pelo qual as estruturas se constroem a partir dos elementos que as constituem.

Referências:

KAMII, Constance, DEVRIES, Retha. Piaget para a educação pré-escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991. 101 p.

LIMA, Lauro de Oliveira. Conceitos fundamentais de Piaget: (vocabulário). Rio de Janeiro: MOBRAL, 1980. 179 p.

PIAGET, Jean, INHELDER, Barbel. A psicologia da criança. 10. ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. 135 p.

PIATTELLI-PALMARINI, Massimo (org). Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem: o debate entre Jean Piaget e Noam Chomsky. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1983.

RAMOZZI-CHIAROTTINO, Zelia. Psicologia e epistemologia genética de Jean Piaget. São Paulo: EPU. 1988. 87 p.

 

Etapas da Comunicação e Funções da Linguagem

por: Roberto Lazaro Silveira

Uma melhor compreensão das funções da linguagem requer conhecimento sobre as etapas da comunicação que não acontece somente quando gritamos, falamos, dialogamos ou textualizamos, ela se faz presente em todos os momentos.

Exercemos comunicações com nossos animais de estimação, amigos, com o jornal que lemos, gesticulando etc…

Os elementos da comunicação são:
a) emissor: é aquele que envia a mensagem (pode ser uma única pessoa ou um grupo de pessoas);
b) mensagem – é o contéudo (assunto) das informações que ora são transmitidas;
c) receptor: é aquele a quem a mensagem é endereçada (um indivíduo ou um grupo), também conhecido como destinatário;
d) canal de comunicação: é o meio pelo qual a mensagem é transmitida;
e) código: é o conjunto de signos e de regras de combinação desses signos utilizado para elaborar a mensagem: o emissor codifica aquilo que o receptor irá decodificar;
f) contexto: é o objeto ou a situação a que a mensagem se refere.

Jakobson elaborou estudos acerca das funções da linguagem partindo das seus etapas acima criando seis funções:
1. Função referencial: referente é o objeto ou situação de que a mensagem trata. A função referencial privilegia justamente o referente da mensagem, buscando transmitir informações objetivas sobre ele. Essa função predomina nos textos de caráter científico e é privilegiado nos textos jornalísticos.

2. Função emotiva: através dessa função, o emissor imprime no texto as marcas de sua atitude pessoal: emoções, avaliações, opiniões. O leitor sente no texto a presença do emissor.

3. Função conativa: essa função procura organizar o texto de forma a que se imponha sobre o receptor da mensagem, persuadindo-o, seduzindo-o. Nas mensagens em que predomina essa função, busca-se envolver o leitor com o conteúdo transmitido, levando-o a adotar este ou aquele comportamento.

4.Função fática: a palavra fático significa “ruído, rumor”. Foi utilizada inicialmente para designar certas formas que se usam para chamar a atenção (ruídos como psiu, ahn, ei). Essa função ocorre quando a mensagem se orienta sobre o canal de comunicação ou contato, buscando verificar e fortalecer sua eficiência.

5. Função metalinguística: quando a linguagem se volta sobre si mesma, transformando-se em seu próprio referente, ocorre a função metalinguística.

6. Função poética: quando a mensagem é elaborada de forma inovadora e imprevista, utilizando combinações sonoras ou rítmicas, jogos de imagem ou de ideias, temos a manifestação da função poética da linguagem. Essa função é capaz de despertar no leitor prazer estético e surpresa. É explorado na poesia e em textos publicitários.

São funções presentes em conjunto, no entanto, podemos notar que alguma será mais evidente e como conseguencia podemos identificar a principal finalidade do texto.