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A mitologia, a jornada do herói e o ritual da loucura

por: Roberto Lazaro Silveira

Este site tem recebido alguns comentários afirmando que o mesmo está “melhor do que muita sala de aula”. Agradeço muito por este tipo de comentário e fico motivado a escrever muito mais, apresentando-lhes leituras que realmente fogem da sala de aula cada vez mais Marxista e mais distante da psicologia. Dizem que o pior cego é o que não quer enxergar… mas, também dizem: Os cães ladram, mas a caravana não para.

Então textos como este copiado do livro A Tempestuosa Busca do Ser, escrito por Grof e Esposa, e colado abaixo, geralmente não serão apresentados na sala de aula por serem muito bons para o basicão acadêmico, o ciclo básico! Talvez seja por isto que este nosso espaço tornou-se interessante segundo algumas dezenas de comentários!

Quem são, resumidamente, os Grofs que escreveram o livro de onde foi copiado o texto abaixo? Quem é Stanislav Grof, M.D., Ph.D. que geralmente não aparece na vida acadêmica do estudante de psicologia apresentado pelos docentes? O mesmo desenvolveu um tipo de respiração que retira os filtros da mente e proporcionam um econtro com o interior de forma pura, de forma semelhante à ação do LSD, mas, sem os efeitos “químicos colaterais”.

Stanislav Grof, psiquiatra tcheco, nascido em 1 de Julho de 1931 na cidade de Praga, desenvolveu nos EUA pesquisas sobre os estados alterados de consciência (EAC), através de experiências com o ácido lisérgico, LSD, como meio de atingir esses estados.

Segundo o médico, quando pacientes atingiam outros estados de consciência, emergia-se o subconsciente de maneira intensa, importante para a recuperação da saúde mental, visto que experiências traumáticas e demais bagagens emocionais desfavoráveis poderiam ser trabalhadas de forma mais incisiva e direta. Ao término de sua experiência pessoal com o composto químico, o paciente era capaz de ter uma complexa cadeia de novas compreensões pessoais, “insights”, que ajudavam na sua recuperação.

Mais tarde desenvolveu uma técnica chamada Respiração Holotrópica, através da qual é possível atingir estados de consciência semelhantes através da hiperventilação, como altenativa ao uso clínico do LSD, tornado ilegal.

Alguns Livros do Grof publicados em português:
– Variedades das experiências transpessoais: observações da psicoterapia com LSD. in. WEILL, Pierre (org.) Experiência cósmica e psicose. vol 5 / IV Pequeno tratado de psicologia transpessoal. RJ, Vozes, 1978
– Além do Cérebro: Nascimento, Morte e Transcedência em Psicoterapia. SP, McGraw-Hill Brasil, 1987
– com GROF, Christina. Emergência Espiritual. São Paulo: Cultrix, 1989.
– com BENNETT, E. Hal Zina. A Mente Holotrópica: Novos Conhecimentos Sobre a Psicologia e Pesquisa da Consciência. (Coleção Arco do Tempo, Vol. 8). RJ, Rocco, 1994
– Psicologia do futuro. São Paulo: Heresis, 2000.
– Quando o impossível acontece. São Paulo: Heresis, 2007.
– com GROF, Christina. Respiração Holotrópica: uma nova abordagem de autoexploração e terapia. Rio de Janeiro: Numina, 2011. etc.

Site do Grof: http://www.stanislavgrof.com/

O texto abaixo exige uma certa leitura simbólica ao mesmo tempo em que apresenta este tipo de leitura à você que busca algo além do ciclo básico, boa leitura.

“Nada é superior a esses mistérios. Eles têm adocicado o nosso caráter e suavizado nossos costumes; fizeram-nos passar da condição de selvagens para a de verdadeiros seres humanos. Eles não apenas nos mostraram o modo de viver prazerosamente, mas nos ensinaram a morrer com esperança”.
Cícero, De Legibus

Os mistérios antigos da morte e do renascimento proporcionaram um outro contexto social importante para as experiências de transformação. Nelas os iniciandos se identificam com várias figuras mitológicas que morreram e foram trazidas de volta à vida.

A função da mitologia na psique e na sociedade

É comum pensar que os mitos são produtos do intelecto humano e da imaginação. Nossos conceitos são radicalmente diferentes; além das nossas experiências pessoais nessa área, fomos fortemente influenciados pelo trabalho de Carl Gustav Jung e, mais especificamente, por muitos anos de amizade íntima com o mitólogo Joseph Campbell. O trabalho desses dois pensadores seminais causou uma revolução conceitual para o conhecimento da Mitologia.

De acordo com Jung e Campbell, os mitos não são histórias fictícias sobre aventuras de personagens imaginários em países que não existem e, assim, produtos arbitrários da fantasia individual humana. Eles originam-se no inconsciente coletivo da humanidade e são manifestações dos princípios primordiais de organização da psique e do cosmos que Jung chamou de arquétipos.

Os arquétipos se expressam através da psique humana e de seus processos mais profundos, mas não nascem da mente humana e não são produtos dela. São, de certo modo, ordenados para ela e funcionam conforme seus princípios predominantes. De acordo com Jung, determinados arquétipos poderosos podem influenciar até mesmo eventos históricos e o comportamento de uma cultura específica.

O “inconsciente coletivo”, nome dado por Jung ao lugar onde eles residem, representam uma parte da herança cultural de toda a humanidade, ao longo dos anos. Na Mitologia, os temas arquetípicos básicos, em sua forma mais geral e abstrata, demonstram uma distribuição universal.

Em culturas diferentes e em vários períodos da história, uma pessoa pode encontrar variações específicas desses motivos mitológicos básicos. Um arquétipo universal dos mais representativos é, por exemplo, a Grande Mãe Divina; em várias culturas, essa figura toma a forma de uma mãe divina específica, como Ísis, a Virgem Maria, Kybele ou Káli. Da mesma forma, os conceitos de céu, paraíso e inferno podem ser encontrados em muitas culturas do mundo, mas a forma específica desses domínios arquetípicos varia de um caso para outro.

O Herói de Mil Faces

Em 1948, depois de muitos anos de estudo sistemático das mitologias de várias culturas do mundo, Joseph Campbell publicou seu livro pioneiro, The Hero with a Thousand Faces, obra-prima que nas décadas seguintes teve uma profunda influência sobre um grande número de pensadores de diferentes áreas. Analisando uma ampla gama de mitos de várias partes do mundo, Campbell percebeu que todos pareciam conter variações de uma fórmula arquetípica universal, que ele chamou de monomito.

Era a história do herói, masculino ou feminino, que deixa sua casa e, depois de aventuras fantásticas, retorna como um ser divino. Campbell descobriu que o arquétipo da jornada do herói tem, tipicamente, três fases, que são semelhantes àquelas que descrevemos anteriormente como seqüências características em ritos tradicionais de passagem: separação, iniciação e retorno.

O herói deixa o solo familiar ou é forçadamente separado dele por uma força exterior, é transformado através de uma série de provações e aventuras extraordinárias e, finalmente, é de novo incorporado em sua sociedade de origem com um novo papel.

Nas próprias palavras de Campbell, a fórmula básica para a jornada do herói pode ser resumida como segue: Um herói se arrisca para fora do mundo do dia comum indo a uma região de maravilha sobrenatural: forças fabulosas são aí encontradas e uma vitória decisiva se confirma: o herói volta dessa aventura misteriosa com poder para fazer o bem ao próximo.

O intelecto inquiridor e incisivo de Campbell não estava satisfeito com o reconhecimento da universalidade desse mito no tempo e no espaço. Sua curiosidade o levou a se perguntar o que faz esse mito universal. Por que o tema da jornada do herói apela para as culturas de todos os tempos e países, se até diferem em outros pormenores?

E sua resposta tem a simplicidade e a lógica inexorável de todas as descobertas brilhantes: o monomito da jornada do herói é uma metáfora para as experiências interiores durante uma crise de transformação, descrevendo seus territórios experimentais. Do mesmo modo que a crise de transformação é relevante, assim é o mito.

A emergência espiritual como uma jornada do herói
O próprio Campbell estava consciente do fato de que as aventuras dos xamãs durante as crises de iniciação e dos neófitos durante os ritos de passagem eram exemplos peculiares da jornada heróica. Em 1968 ele encontrou o analista junguiano John Perry, que através dos anos fizera um extenso trabalho psicoterapêutico com clientes jovens que seriam tradicionalmente rotulados de psicóticos. No decorrer do seu trabalho, Perry não usara nenhum medicamento supressivo.

Como resultado do contato com Perry e com seu material, Campbell reconheceu as profundas semelhanças entre o simbolismo da jornada do herói e o das imagens que aparecem em muitas ocorrências espontâneas de estados incomuns de consciência, e estendeu a aplicação do monomito para incluir certas formas de psicoses. Um mito típico da jornada do herói começa quando a vida comum do protagonista é repentinamente interrompida pela intromissão de elementos mágicos por natureza e que pertencem a uma outra ordem de realidade.

Campbell se refere a esse convite para a aventura como um chamado. Em termos psicológicos, podemos pensar nisso como a emergência de elementos do inconsciente profundo, particularmente dos seus níveis arquetípicos para a consciência cotidiana. Se o heroi responde ao convite e aceita o desafio, embarca numa aventura que envolve visitas a territórios estranhos, encontro com animais fantásticos e super seres humanos, além de várias provações.

Depois do término triunfal da jornada, o herói volta para casa e vive uma vida íntegra e recompensadora como um ser divinizado — líder mundial, curandeiro, vidente ou mestre espiritual. Como o herói do monomito, a pessoa em emergência espiritual recebe um chamado. A película sutil que separa nossa vida diária do mundo espantoso da nossa mente inconsciente torna-se transparente e, finalmente, se rompe.

Os conteúdos profundos da psique que passam comumente despercebidos são lançados para a consciência na forma de imagens, emoções fortes e estranhos sentimentos físicos. Inicia- se uma incrível odisséia imaginária rumo às profundezas da psique. Como as histórias heróicas que conhecemos da Mitologia, isso envolve forças obscuras e monstros aterradores, perigos de todos os tipos e encontros com seres sobrenaturais, como também intervenções mágicas.

Quando os desafios dessa jornada interior são aceitos e conseguimos triunfar sobre os acontecimentos, as experiências tornam-se cada vez mais compensadoras e chegam a uma solução positiva. Isso inclui, em geral, um reconhecimento da natureza divina da pessoa e descobertas na ordem universal. As experiências de um encontro com os arquétipos da Grande Mãe Divina e do Pai Divino podem ajudar a pessoa a conseguir maior equilíbrio entre os aspectos masculino e feminino (yang e yin) da sua personalidade.

A pessoa pode ver claramente a concepção incorreta e errônea do passado e perceber como uma vida mais completa e produtiva pode ser possível no futuro. Uma vez que se permite que a experiência alcance uma conclusão natural e que um apoio e uma validação adequados sejam acessíveis, essa pessoa pode voltar para a vida radicalmente transformada.

Muitas dificuldades emocionais e psicossomáticas têm sido superadas e eliminadas no processo de transformação; a auto-imagem e a auto- aceitação são notavelmente incrementadas e a habilidade de gozar a vida aumenta. Pode haver uma intensificação significativa da intuição e da capacidade de trabalhar com outras pessoas — como conselheiro ou guia — nos momentos de crise emocional.

Tudo isso pode resultar numa forte necessidade de incluir o elemento de serviço aos outros como um componente importante da sua vida. Embora os resultados possam não ser tão gloriosos como os da jornada mitológica do herói, são de um tipo semelhante e a metáfora é totalmente apropriada. No entanto, há muitos casos em que algo que começou como uma aventura visionária não chega a um final feliz. Em alguns casos, a pessoa pode recusar o chamado e decidir agarrar-se à realidade comum com seus velhos problemas e limitações.

Uma outra possibilidade é uma falha na complementação da jornada; nesse caso, a pessoa penetra no abismo do inconsciente e é incapaz de voltar a operar plenamente na realidade comum. Este, infelizmente, é o destino de muitas pessoas na nossa cultura que têm que enfrentar a emergência espiritual sem a compreensão e o apoio adequados.

A morte e o renascimento de deuses e heróis

Um tema particularmente forte e que reaparece com uma freqüência marcante na mitologia da jornada do herói é o encontro com a morte e o renascimento subseqüente. As mitologias de todos os tempos e países incluem histórias extraordinárias sobre heróis e heroínas que desceram ao reino da morte e, tendo vencido obstáculos jamais sonhados, voltaram à Terra dotados de poderes especiais.

Os xamãs legendários de várias culturas, os gêmeos do épico maia Popol Vuh e os heróis gregos Ulisses e Hércules são exemplos evidentes desses personagens míticos. São igualmente freqüentes os contos sobre deuses, semideuses e heróis que morreram ou foram mortos e depois voltaram à vida com uma nova função, exaltados e imortalizados pela experiência de morte e renascimento.

O tema central da religião judeu- cristã — a crucificação e a ressurreição de Jesus — é apenas um exemplo. De uma forma menos simbólica, o mesmo motivo às vezes é representado como a experiência de ser devorado por um monstro aterrador e ser, então, regurgitado ou realizar uma fuga milagrosa. Os exemplos aqui variam do herói grego Jasão e do herói bíblico Jonas a Santa Margarida, que foi presumivelmente engolida por um dragão e salva por um milagre.

Considerando quão universais e importantes são esses temas na mitologia mundial, é interessante perceber que seqüências de morte e renascimento também estão entre as experiências mais freqüentes observadas em estados incomuns de consciência, induzidos por vários meios ou ocorrendo espontaneamente. Elas desempenham um papel extremamente importante nos processos de transformação psicológica e de abertura espiritual. Muitas culturas antigas eram bem conscientes desse fato e desenvolveram procedimentos de iniciação intimamente ligados aos mitos de morte e renascimento.

Os mistérios da morte e do renascimento Em muitas partes do mundo, os mitos da morte e do renascimento serviram como base ideológica para os sagrados mistérios — impressionantes eventos ritualísticos em que os aprendizes vivenciavam a morte e o renascimento psicológico. Os meios para induzir esses estados alterados de consciência são semelhantes aos usados nos procedimentos xamânicos e ritos de passagem: batucadas, cantilenas e danças; alteração do ritmo da respiração; exposição ao desgaste físico e à dor e situações de risco de vida aparentes ou reais.

Entre os recursos mais potentes empregados para esse fim estão várias plantas com propriedades psicoativadoras. Em alguns casos, o processo de alteração da mente nesses rituais não é conhecido: ou foi mantido em segredo ou a informação se perdeu com o passar do tempo.

As experiências, freqüentemente aterradoras e confusas aplicadas aos iniciandos, eram vistas como oportunidades de fazer contato com divindades e com os reinos sagrados; eram vistas como necessárias, desejáveis e essencialmente curativas. Há até mesmo indicações de que a exposição voluntária a esses estados extremos da mente era considerada uma prevenção e uma proteção contra a verdadeira insanidade.

Isso pode ser explicado pelo mito grego de Dioniso, que convidou os cidadãos de Tebas a juntar-se a ele na Dança Menor, o êxtase do Bacanal — um ritual orgíaco que envolvia danças selvagens e o desencadeamento de várias emoções e energias instintivas. Prometeu-lhes que esse evento os levaria a lugares que nunca sonharam ser possível. Quando recusavam, forçava-os à Dança Maior de Dioniso, um período perigoso de loucura no qual confundiam seu príncipe com um animal selvagem e o matavam.

Como esse mito popular indica, os antigos gregos eram conscientes do fato de que o perigo nos força a nos refugiarmos na nossa psique, que precisa de uma oportunidade para se expressar no contexto apropriado. Os eventos psicológicos poderosos que os iniciandos encontraram nos mistérios de morte e renascimento tinham, indubitavelmente, um potencial marcante de cura e de transformação.

Então, podemos nos referir ao testemunho de dois gigantes da antiga filosofia grega, Platão e Aristóteles. (O fato de que esse testemunho vem da Grécia, o berço da civilização ocidental, não é de particular relevância aqui, já que é muito fácil para os ocidentais ignorar a evidência do xamanismo ou dos ritos de passagem, vindos como vêm de culturas estranhas à nossa tradição.)

Em seu diálogo intitulado Fedra, Platão distinguiu dois tipos de loucura, uma resultando das doenças humanas e outra da intervenção divina — como poderíamos reformular em termos de psicologia moderna —, influências arquetípicas originadas no inconsciente coletivo.

Na variação mais recente, ele adicionou mais quatro tipos diferenciados, atribuindo-lhes deuses específicos: a loucura do amante a Afrodite e Eros; a da ruptura profética a Apolo; a da inspiração artística às Musas; e a do êxtase ritualístico a Dioniso. Platão fez uma descrição nítida do potencial terapêutico da loucura ritualista, usando como exemplo uma variação menos conhecida dos mistérios gregos, os ritos coribânticos. De acordo com ele, a dança selvagem para flautas e tambores, culminando com uma liberação emocional explosiva, resultava num estado de profundo relaxamento e tranqüilidade.

O grande discípulo de Platão, Aristóteles, foi o autor da primeira afirmação explícita de que a experiência e a total liberação de emoções reprimidas que ele chamou de catharsis (significando literalmente “purificação” ou “purgação”), representava um tratamento efetivo de desordens mentais. Também expressou sua crença de que os mistérios gregos forneciam um forte contexto para esse processo.

De acordo com Aristóteles, pelo uso do vinho, de afrodisíacos e de música, os iniciandos vivenciavam um despertar extraordinário de paixões seguido por uma catarse de cura. De acordo com a tese básica dos membros do culto ao oráculo, uma das escolas místicas mais importantes da época, Aristóteles estava convencido de que o caos e a exaltação dos mistérios eram proveitosos para a ordem final.

Essa compreensão do relacionamento entre estados emocionais intensos e cura está muito próxima do conceito de emergência espiritual e das estratégias de tratamento correspondentes. Os sintomas extraordinários não são necessariamente indicativos de patologia; em determinados contextos, são recebidos como manifestações de vários conteúdos e forças perturbadoras que preexistiam no inconsciente. Desse ponto de vista, trazendo-os para a consciência e confrontando-os, são considerados agradáveis e com poder de cura.

A popularidade e a ampla distribuição dos mistérios no mundo antigo indicam que os participantes consideravam-nos psicologicamente relevantes e benéficos. Os famosos mistérios de Elêusis, perto de Atenas, foram realizados a cada cinco anos sem interrupção por um período de quase dois mil anos. Gostaríamos de mencionar brevemente os mistérios mais importantes de morte e de renascimento que eram dramatizados nos tempos antigos em várias partes do mundo.

Os temas arquetípicos, representados nesses rituais, geralmente emergem nas experiências de ocidentais modernos que estão passando por uma profunda terapia experiencial ou por emergências espirituais. Para essas pessoas e para aqueles que as estão assistindo em seu processo, o conhecimento da Mitologia encontrado durante a jornada interior pode fornecer diretrizes importantes. Entre os mistérios mais antigos de morte e de renascimento estão os ritos babilônicos e assírios de Ishtar e de Tamuz.

São baseados no mito da Deusa-Mãe Ishtar, e sua descida aos infernos, o reino da morte, governado pela terrível deusa Ereshkigal, em busca de um elixir que poderia restituir a vida a seu filho morto e seu marido, Tamuz. De acordo com a interpretação esotérica, o mito da jornada de Ishtar ao inferno e seu retorno com êxito simbolizam o aprisionamento da consciência na matéria e a sua libertação, através do efeito libertador de ensinamentos e de processos espirituais secretos. Optando por passar por uma provação semelhante à de Ishtar, os iniciandos podem alcançar uma liberação espiritual.

Nos templos de Ísis e de Osíris, no antigo Egito, iniciandos se sujeitavam a provações complexas sob a liderança de venerandos sacerdotes a fim de superar o medo da morte e obter acesso ao conhecimento esotérico sobre o universo e a natureza humana. Durante esse ritual de iniciação, os aprendizes passavam por uma identificação com o deus Osíris, que de acordo com o mito subjacente a esse mistério fora morto e esquartejado pelo seu maldoso irmão, Set, para depois ser trazido de volta à vida por suas irmãs, Ísis e Néftis.

Na Grécia antiga e nos países vizinhos, as religiões de mistérios e os ritos sagrados eram abundantes. Os mistérios eleusianos foram baseados numa interpretação esotérica do mito sobre a deusa Deméter e sua irmã Perséfone. Perséfone foi raptada por Plutão, o deus do inferno, mas foi libertada pela intervenção de Zeus sob a condição de que ela voltasse ao reino de Plutão por um trimestre a cada ano.

Esse mito, comumente considerado uma alegoria sobre o crescimento cíclico das plantas durante as estações do ano, tornou-se, pelos iniciandos eleusianos, um símbolo para as batalhas espirituais da alma, periodicamente aprisionada na matéria e libertada. Outros exemplos de mistérios gregos incluem o culto órfico, que gira em torno da lenda do poeta endeusado Orfeu, o incomparável músico e cantor que visitou o inferno para libertar sua amada Eurídice do cativeiro e da morte.

Os ritos dionisíacos ou a bacanália foram baseados na história mitológica do jovem Dioniso, que foi desmembrado pelos Titãs e, depois, ressuscitado quando Palas Atena resgatou o seu coração. Nos ritos dionisíacos, os iniciandos passam por uma identificação com o deus assassinado e renascido, através de danças orgíacas, de corridas por regiões silvestres e da ingestão de bebidas tóxicas e da carne crua de animais. Outro mito famoso sobre um deus agonizante era a história de Adônis.

Sua mãe, Smirna, havia sido transformada pelos deuses numa árvore de mirra. Depois um javali selvagem facilitou seu nascimento da árvore, Adônis foi destinado passar um terço de cada ano com Perséfone e o resto do ano com Afrodite. Os mistérios inspirados por esse mito eram comemorados todos os anos em muitas partes do Egito, da Fenícia e de Biblos. Os mistérios frígios, intimamente ligados aos relatados acima, eram celebrados em nome de Átis, divindade que castrou si mesma e que foi ressuscitada pela Grande Deusa-Mãe Cibele.

Esses exemplos não são, de modo algum, uma narração exaustiva de mistérios antigos e de religiões de mistérios. Procedimentos semelhantes que giram ao redor da morte e do renascimento podem ser encontrados na religião mitraica, na tradição nórdica e na cultura maia pré-colombiana; também estão presentes como elementos de iniciação a várias ordens e sociedades secretas e em muitos outros contextos.

A realeza sagrada e a notável representação real da morte e do renascimento Antes de deixar o campo do mito e dos rituais, gostaríamos de fazer uma breve referência a uma fase do desenvolvimento cultural que o trabalho de John Perry tornou particularmente relevante para o estudo da emergência espiritual. Na evolução das grandes culturas do mundo, mesmo aquelas que para o nosso melhor conhecimento não tiveram nenhum contato entre si, há um período que pode ser citado como a era da realeza sagrada ou, na terminologia de Perry, a “era arcaica do mito encarnado”.

Durante esse tempo, que coincide mais ou menos com o aparecimento das cidades, o rei era visto pela cultura como sendo literalmente a encarnação de um deus. Esse tipo de sociedade pode ser encontrada na história do Egito, da Mesopotâmia, de Israel, de Roma, da Grécia, das ilhas nórdicas, do Irã, da Índia e da América Central (os toltecas e os astecas).

Completamente independentes umas das outras, essas culturas celebravam primorosos festivais de Ano Novo, durante os quais um teatro ritualístico era representado, girando em torno da pessoa do rei e com certos temas-padrão. Depois que o local do ritual era estabelecido como o centro do mundo, seqüências dramáticas retratavam a morte do rei e a sua volta ao início dos tempos e « criação.

Isso era seguido pelo seu novo nascimento, por um casamento sagrado e pela sua apoteose como um herói messiânico. Tudo isso acontecia no contexto de um conflito cósmico que envolvia um dramático choque de oposições — luta entre as forças da luz e as das trevas e o confronto entre o bem e o mal.

Uma parte importante do teatro real era a inversão das polaridades sexuais, expressas pela participação de travestis. A representação simbólica terminava com a representação de um mundo renovado e de uma sociedade revitalizada. Esses rituais eram considerados de importância crucial para a existência e a estabilidade contínua do cosmos e da natureza e para a prosperidade da sociedade.

Durante o trabalho psicoterapêutico sistemático com clientes que estavam passando por episódios espontâneos de estados incomuns de consciência, Perry chegou a uma conclusão espantosa: muitos desses estados giravam em torno dos mesmos temas, como os festivais de Ano Novo descritos acima.

É um desafio crucial a visão desses estados como indícios de doença mental. Seus temas arquetípicos estão significativamente relacionados com a evolução do consciente numa escala coletiva e, se possível, também numa escala individual; isto é muito diferente do fato de que o seu conteúdo rico e complexo possa ser o produto da distorção dos processos mentais devido a uma debilitação patológica do cérebro.

Seqüências mitológicas extraordinárias retratando a morte, o renascimento e outros temas são extremamente freqüentes na psicoterapia experimental, assim como em episódios de emergência espiritual. Em estados incomuns de consciência, esse material mitológico emerge espontaneamente das profundezas da psique, sem nenhuma programação e, em geral, para surpresa de todos os envolvidos.

Imagens arquetípicas e cenas inteiras da mitologia de várias culturas ocorrem freqüentemente nas experiências de pessoas que não têm nenhum conhecimento intelectual das figuras míticas e dos temas que estão encontrando. Dioniso, Osíris e Odin, assim como Jesus Cristo, parecem residir na psique dos ocidentais modernos e estarem vivos nos estados incomuns de consciência.

Os legados espirituais das grandes religiões

Os demônios atacam, alguns atirando ao topo das montanhas a cor das chamas; alguns arrancando mastros de cobre e ferro e árvores pelas raízes; alguns jogando ao chão camelos e elefantes com olhos assustadores, cobras e répteis horríveis com olhares venenosos e outros demônios com cabeças de boi.

Confronto de Buda com Kama Mara,
The Lalitavistara Sutra

O estudo da história das grandes religiões do mundo e das suas escrituras sagradas é altamente relevante para o entendimento das emergências espirituais. Mesmo uma olhada superficial nesses materiais revela que todos os movimentos religiosos que delineiam a história humana foram inspirados e repetidamente revigorados por experiências imaginárias de realidades transpessoais.

As tradições místicas e as ordens monásticas de muitas religiões nos legaram cartografias dos estados mentais encontrados durante momentos críticos importantes da prática espiritual, incluindo várias armadilhas e vicissitudes.

As pessoas em emergência espiritual encontram muitas dessas mesmas dificuldades, e seu processo segue os mesmos estágios. Por esta razão, esses mapas representam guias importantes para as pessoas em crise de transformação e para aquelas e as assistem.

Em muitos casos, as experiências realmente envolvem as formas arquetípicas específicas de um determinado sistema religioso, como o hinduísmo, o budismo ou o misticismo cristão. Nas páginas seguintes, veremos algumas das cartografias que podem ser úteis, em especial para as pessoas que estão passando por uma emergência espiritual. (…)

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Ribeirinhos de Porto Velho, vítimas das Usinas do Madeira, foram massacrados com a remoção à Nazismo!

por: Roberto Lazaro Silveira

Clique aqui para salvar meu artigo científico sobre o tema.

Modernizando as Usinas Hidrelétricas existente no Brasil, que foram construídas antes da sacanagem com o Rio Madeira, torna-se possível aumentar a produção de energia elétrica até a estratosfera. Mas, em um país do PCC/FARC/PT/PMDB/PSDB, ou seja, sem oposição, quanto vale a cultura, a natureza e a vida das minorias?

Então tomei a decisão de realizar este artigo acima em homenagem àqueles que lutam contra as excessões de uma República. O estudo comprovou através de uma análise do inconsciente dos mesmos, que os danos psicológicos possuem o potencial de destruir toda a descendência Ribeirinha por estarem ligados aos mais profundos desejos de permanência no local e usurparem o lar doce lar.

Retiraram o habitat natural, colocaram os mesmos em apartamentos minúsculos e o governo diz que irá providenciar cultura e educação para todos. Uma violência a mais, pois, não foram perguntados se queriam a nossa cultura!

 

Identifique o Gyodai

por: Roberto Lazaro Silveira

Gyodai era um personagem inimigo dos Changemans, seriado apresentado em 1988 pela rede Manchete. Os Changemans era composto por cinco integrantes do exército dos Defensores da Terra banhados pela Força Terrestre (Earth Force) e adquirem cada um os poderes de um densetsu-ju (animal lendário): Dragão (Change Dragon), Grifo (Change Griphon), Pégaso (Change Pegasus), Sereia (Change Mermaid) e Fênix (Change Phoenix).

Suas missões era lutar contra monstros espaciais. Então quando venciam o mostro, entrava em cena o famoso Gyodai que tornava gigantes os monstros vencidos.

Este personagem foi escolhido para ilustrar alguns casos clínicos que tenho tratado e estão relacionados aos conflitos que temos com outros no dia a dia e depois levamos a pessoa para casa em nossa mente e ficamos imaginando algumas possíveis respostas ou até mesmos agressões físicas e premeditando um possível reencontro para vingança.

Talvez nem veremos mais a pessoa com quem tivemos o contratempo que durou apenas minutos e ampliamos para dias meses… Então inclua este conhecimento tornando-o capaz de gerar um autoconhecimento sobre ti mesmo. Procure identificar o Gyodai dentro de você e conhecer as razões que o fazem aparecer, desta maneira será possível vencê-lo. Ja ouviu falar em fazer tempestade em copo d’agua ou tornar um probleminha um problemão? ….. são complexos identificáveis ao redor do mesmo núcleo arquetípico. Ajuda muito à derrotar o Gyodai quando assumimos a seguinte linha de pensamento: “Eu tenho valor, sou único no mundo….” Ninguém é inferior ou superior em tudo ou nada. Pense nisto!

 

Anjos

por: Roberto Lazaro Silveira

O Senhor dotou os anjos de conhecimento, poder e mobilidade mais elevados do que aos homens. Por esses elementos descobrimos algumas características especiais capazes de fazer-nos compreender alguns aspectos da revelação bíblica e das relações pessoais com os homens. Santidade.

Os anjos são santos segundo o livro bíblico Apocalipse: Isto implica em que eles foram colocados em estados eterno de santidade (Ap. 14.10). Outros textos das Escrituras os identificam como “santos” (Mt 25.31; Mc 8.38; Lc 9.26; At 10.22) para os distinguir dos anjos caídos Jo 8.44 e 1 Jo 3.8-10.

Reverência a Deus: Uma das características principais das atividades angelicais é o louvor e a adoração (Sl 29.1,2; 89.7; 103.30; 148.2). Jesus declarou que os anjos de Deus sempre estão na presença do Pai e vêm a sua face (Mt 18.10).

De modo geral, todos os anjos de Deus o louvam e o adoram, mas há uma classe específica das hostes angelicais cuja função principal é louvar e adorar a Deus; são os serafins. Essa classe de anjos permanece ao redor do trono como servos do Todo-Poderoso, para executarem a sua vontade (Is 6.3).

Reverência: respeito e veneração marcado pelo temor. Esse temor não é o reconhecimento do poder Divino supremo.

Serviço: No livro bíblico de Hebreus os anjos são denominados “espíritos ministradores” (Hb 1.14), indicando que eles exercem serviços especiais aos interesses do Reino de Deus.

As primeiras descrições sobre anjos apareceram no Antigo Testamento. A menção mais antiga de um anjo aparece em Ur, cidade do Oriente Médio, há mais de 4.000 a.C.

Na arte cristã eles apareceram em 312 d.C., introduzidos pelo Imperador romano Constantino, que sendo pagão, converteu-se ao cristianismo quando viu uma cruz no céu, antes de uma batalha importante.

São relatados no novo testamento anjos que apareceram nos momentos marcantes da vida de Jesus: nascimento, pregações, martírio e ressurreição.

Existem muitos anjos? João em seu livro Apocalipse relata: “E olhei, e vi a voz de muitos anjos ao redor do trono e dos seres viventes e dos anciãos; e o número deles era miríades de miríades e milhares de milhares” (Apocalipse 5:11).

Jesus Cristo é o lider dos anjos: “Cristo está à destra de Deus, tendo subido ao céu; havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potestades” (1 Pedro 3:22).

Anjos oferecem proteção: “O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que O temem, e os livra” (Salmo 34.7).

Existem anjos do mau: Eles lutam contra os justos.“Pois não é contra carne e sangue que temos que lutar, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniqüidade nas regiões celestes” (Efésios 6:12).

Satanás e os seus anjos maus estão condenados: “Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai- vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos” (Mateus 25:41).

Um erro muito comum na religião protestante que aparece também em letras de “músicas evangélicas” é relacionar as potestades e principados somente aos anjos maus, pois, exitem também potestades e principados do bem, ou seja, o diabo imita a organização celestial, pois, no passado foi um deles, ou melhor, o mais iluminado de todos e quando ficou revoltado contra Deus caiu na terra com um terço dos anjos que habitavam o céu.

O anjo do Senhor é letal: O livro de 2 Reis 19.35 recapitula como o Anjo do Senhor destruiu em uma Noite 185.000 soldados assírios, quando este exército sitiou Jerusalém.

Os anjos de acordo com a bíblia podem ser mensageiros, protetores, assassinos… São justiceiros divinos:

Os anjos executam a vontade de Deus:O próprio sentido da palavra “anjo” é mensageiro. Portanto, é função precípua dos anjos servir aos interesses de Deus, obedecendo-lhe em toda a sua soberana vontade. Mais uma vez o autor de Hebreus indica essa função angelical de serviço quando diz: “Ainda quanto aos anjos, diz: Aquele que a seus anjos faz ventos e a seus ministros labaredas de fogo”(Hb 1.7). Os escritor sagrado os destaca como “ministros” para identificar o serviço que prestam a Deus em favor dos santos em Cristo.

Os anjos cuidam e protegem os fiéis:Há um texto nos Salmos que declara que “o anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra”(Sl 34.7). Elias, ameaçado de morte pela rainha Jesabel, mulher de Acabe, precisou fugir da cidade para escapar com vida. Elias fugiu para o deserto e assentou-se debaixo de uma pequena árvore chamada zimbro. Estava triste e decepcionado, por isso, pediu a morte. Deitado debaixo daquele zimbro, veio um anjo da parte de Deus e o tocou e lhe disse: “Levanta-te e come. E olhou, e eis que à cabeceira estava um pão cozido sobre brasas, e uma botija de água; e comeu, e bebeu e tornou a deitar-se. E o anjo do Senhor tornou segunda vez, e tocou-o, e disse: Levanta-te e come, porque mui comprido te será o caminho” (1 Rs 19.5-7)

Os anjos punem os inimigos de Deus: s inimigos de Deus agem de muitas maneiras, mas nada passa despercebido pelo Senhor. Houve um rei da Assíria, chamado Senaqueribe, que desafiou ao Deus de Ezequias, rei de Judá. Imediatamente Deus enviou um anjo poderoso o qual destruiu o exército assírio de 185 mil soldados. Para preservar o seu povo e o seu nome, Deus puniu aqueles inimigos (2 Rs 19.35). No período dos juízos finais da história da humanidade, os anjos serão os emissários de Deus para executarem o seu juízo contra aqueles que rejeitam a Jesus como Salvador do mundo e se constituem em inimigos declarados do soberano Senhor (Mt 13.50).

UMA POSSÍVEL HIERARQUIA ANGELICAL

Primeira Hierarquia: É formada pelos Santos Anjos que estão em íntimo contato com o CRIADOR. Dedicam-se a Amar, Adorar e Glorificar a DEUS numa constante e permanente frequência, em grau bem mais elevado que os outros Coros: Serafins, Querubins e Tronos.

SERAFINS:
O nome “seraph” deriva do hebreu e significa “queimar completamente”. Segundo o conceito hebraico, o Serafim não é apenas um ser que “queima”, mas “que se consome” no amor ao Sumo Bem, que é o nosso DEUS Altíssimo.

Na Sagrada Escritura os Santos Anjos Serafins aparecem somente uma única vez, na visão de Isaias: (Is 6,1-2)

QUERUBINS:
São considerados guardas e mensageiros dos Mistérios Divinos, com a missão especial de transmitir Sabedoria. No início da criação, foram colocados pelo CRIADOR para guardar o caminho da Árvore da Vida.(Gn 3,24) Na Sagrada Escritura o nome dos Santos Anjos Querubins é o mais citado, aparecendo cerca de 80 vezes nos diversos livros. São também os Querubins os seres misteriosos que Ezequiel descreve na visão que teve, no momento de sua vocação: (Ez 10,12) Quando Moisés recebeu as prescrições para a construção da Arca da Aliança, onde o SENHOR habitou, o trono Divino foi colocado entre dois Querubins: (Ex 25,8-9.18-19) Estas considerações atestam que os Querubins são conhecedores dos Mistérios Divinos.

TRONOS:
Acolhem em si a Grandeza do CRIADOR e a transmitem aos Santos Anjos de graus inferiores. São chamados “Sedes Dei” (Sede de DEUS).
Em síntese, os Tronos são aqueles Santos Anjos que apresentam aos Coros inferiores, o esplendor da Divina Onipotência.

Segunda Hierarquia: São os Santos Anjos que dirigem os Planos da Eterna Sabedoria, comunicando aqueles projetos aos Anjos da Terceira Hierarquia, que vigiam o comportamento da humanidade. Eles são responsáveis pelos acontecimentos no Universo. Esta Hierarquia é formada pelos seguintes Coros de Anjos: Dominações, Potestades e Virtudes.

DOMINAÇÕES:
São aqueles da alta nobreza celeste. Para caracteriza-los com ênfase, São Gregório escreveu:

“Algumas fileiras do exército angélico chamam-se Dominações, porque os restantes lhe são submissos, ou seja, lhe são obedientes”. São enviados por DEUS a missões mais relevantes e também, são incluídos entre os Santos Anjos que exercem a “função de Ministro de DEUS”.

POTESTADES:
É o Coro Angélico formado pelos Santos Anjos que transmitem aquilo que deve ser feito, cuidando de modo especial da “forma” ou “maneira” como devem ser feitas as coisas. Também são os Condutores da ordem sagrada. Pelo fato de transmitirem o poder que recebem de DEUS, são espíritos de alta concentração, alcançando um grau elevado de contemplação ao CRIADOR.

VIRTUDES:
As atribuições dos Santos Anjos deste Coro, são semelhantes aquelas dos Santos Anjos do Coro Potestades, porque também eles transmitem aquilo que deve ser feito pelos outros Anjos, mas sobretudo, auxiliam no sentido de que as coisas sejam realizadas de modo perfeito. Assim, eles também têm a missão de remover os obstáculos que querem interferir no perfeito cumprimento das ordens do CRIADOR. São considerados Anjos fortes e viris. Quem sofre de fraquezas físicas ou espirituais, deve invocar por meio de orações, o auxílio e a proteção de um Santo Anjo do Coro das Virtudes.

Terceira hierarquia: É formada pelos Santos Anjos que executam as ordens do Altíssimo. Eles estão mais próximos de nós e conhecem a fundo a natureza de cada pessoa que devem assistir, a fim de poderem cumprir com exatidão a Vontade Divina: insinuando, avisando ou castigando, conforme o caso. Esta Hierarquia é formada pelos: Principados, Arcanjos e Anjos.

PRINCIPADOS:
Os Santos Anjos deste Coro são guias dos mensageiros Divinos. Não são enviados a missões modestas, ao contrário, são enviados a príncipes, reis, províncias, Dioceses, de conformidade com o honroso título de seu Coro.

No livro de Daniel são também apresentados como protetores de povos: (Dn 10,13) Significa dizer, que são aqueles Anjos que levam as instruções e os avisos Divinos, ao conhecimento dos povos que lhe são confiados.

Porém, quando esses mesmos povos recusam aceitar as mensagens do SENHOR, os Principados transformam-se em Anjos Vingadores, e derramam as taças da ira Divina sobre eles, de forma a reconduzi-los através do castigo e da dor, de volta ao DEUS de Amor e Misericórdia que eles abandonaram propositalmente.

ARCANJOS:
A ordem tradicional dos Coros Angélicos coloca os “Arcanjos” entre os “Principados” e os “Anjos”. Pelas funções que desempenha, acreditamos que ele deve estar colocado no mais alto Coro dos Santos Anjos. Gabriel também é chamado de Arcanjo, e da mesma maneira que Miguel, através das páginas da Sagrada Escritura, vê-se que é conhecedor dos mais profundos Mistérios de DEUS, inclusive foi Gabriel quem Anunciou a MARIA que Ela estava cheia de graças e tinha sido escolhida pelo CRIADOR, para MÃE DE DEUS. Por outro lado, também Rafael é denominado pela Igreja como um Arcanjo. A respeito de Rafael, no Livro de Tobias, ele mesmo confirma que está diante de DEUS:

“Eu sou Rafael, um dos sete Anjos que estão sempre presentes e tem acesso junto à Glória do SENHOR”. (Tb 12,15)

ANJOS:
Os Santos Anjos recebem as ordens dos Coros superiores e as executam. Outro aspecto que não pode ser esquecido, é o fato de que os Santos Anjos, guardadas as devidas proporções, estão mais perto da humanidade e por assim dizer, convivendo conosco e prestando um serviço silencioso mas de valor incomensurável à cada pessoa.

DEUS inspirou o escritor sagrado do Livro Êxodo, da Bíblia Sagrada, sobre anjos:

“Eis que envio um Anjo diante de ti, para que te guarde pelo caminho e te conduza ao lugar que tenho preparado para ti. Respeita a sua presença e observa a sua voz, e não lhe sejas rebelde, porque não perdoará a vossa transgressão, pois nele está o Meu Nome. Mas se escutares fielmente a sua voz e fizeres o que te disser, então serei inimigo dos teus inimigos e adversário dos teus adversários” (Ex 23,20-22).

 

COMO LIVRAR-SE DAS DÍVIDAS – O ETERNO RETORNO

por: Roberto Lazaro Silveira

Eclesiastes: O nome vem da tradução grega do título – Qohelet – e quer dizer “aquele que reúne”. Ecclesia, a reunião, o grupo, é a palavra grega que vai originar a nossa “igreja”. Uma boa tradução menos literal para Qohelet é professor.

No início do livro, o professor se apresenta como filho de Davi e rei de Jerusalém. Apenas Salomão corresponde a esta descrição. Uma das interpretações é de que o Professor é um descendente de Davi; outra, que ele simplesmente atribui o texto a Salomão para ganhar credibilidade.

Ele conta que teve muitas mulheres, mas aí percebeu que isto não traz nada; conta que teve muito dinheiro, mas sobrou apenas o vazio; que trabalhou duro e também isto pouco significou. Que estudou e fez-se sábio, mas que continuava o mesmo. Tudo o que possamos fazer já foi feito, “Não há nada de novo sob o Sol”.

Ouroboros, oroboro ou ainda uróboro: Dentre as várias tentativas de explicar o símbolo existe uma complementar às percepções contidas no livro Eclesiastes e que reforça a condição arquetípica do tema, veja: Segundo o “Dictionnaire des symboles” o ouroboros simboliza o ciclo da evolução voltando-se sobre si mesmo. O símbolo contém as idéias de movimento, continuidade, auto fecundação e, em consequência, eterno retorno.

Eterno retorno: é um conceito filosófico formulado por Friedrich Nietzsche. Em alemão o termo é Ewige Wiederkunft. Uma síntese dessa teoria é encontrada em A Gaia Ciência, leia abaixo:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio.

A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e arquétipo?”

Como utilizar estes conceitos para solucionar os nossos problemas sem medo do retorno? Destruindo os ciclos de repetição: encontrar e destruir o anel – representação do ciclo fechado. O encontro com o anel torna possível sua destruição e desta forma adentrar em um novo ciclo menos prejudicial à nossa vontade uma vez sabido que somente podemos romper com uma realidade encarando outra!

Vejamos o caso de Rock: Queixando-se de insônia por causa de dívidas.

Durante algumas sessões pude notar que quando Rock  recebia seu salário, antes mesmo de pagar as contas, já havia gasto toda a grana com coisas supérfluas e no mês seguinte o ciclo repetia-se agravando a situação.

Antes de decidir resolver o problema de forma efetiva procurou um psiquiatra que receitou alguns remédios para a insônia, logo, tratando apenas dos sintomas o resultado foi a criação de um novo ciclo: A dependência de psicotrópicos. Reforçando também o primeiro ciclo que agora conta com o preço dos remédios – que recheiam os cofres da indústria farmacêutica sem nunca ter proporcionado uma unica cura. Clique aqui para receber de graça em sua residência o vídeo “Psiquiatria uma indústria de morte“.

Agora buscando o auto-conhecimento através das sessões psicoterapêuticas, Rock conseguiu encontrar o anel, ou seja, identificou como gerava novas contas sem ter pago as anteriores e agora detinha o anel e podia quebrá-lo – fruto do auto-conhecimento obtido nas sessões em parceria com o psicólogo psicoterapêuta.

Para obter este auto-conhecimento Rock encarou momentos difíceis durante a terapia que teve como objetivo demonstrar sua oralidade (condição de compensação para as frustrações ocorridas na construção de seu caráter) que estará presente durante toda sua vida, pois, é uma estrutura de personalidade predisposta aos excessos como defesa.

Rock estabeleceu uma meta: pagar as contas antigas sem gerar novas contas: logo que percebia o pagamento em seu notebook acessando o site do banco, Rock recolhia os boletos mais antigos de sua gaveta e pagava todos eles até 80% do salário e notava que com os outros 20% restantes dava para passar o mês, pois, era parte de suas metas não dar entrada em algo supérfluo novo que fortaleceria o ciclo anterior impedindo de quebrá-lo.

Quanto ao ciclo gerado em sua primeira tentativa de livrar-se das dívidas: o uso de psicotrópicos, Rock foi orientado a trabalhar a respiração através de exercícios de bioenergética ou Terapia Bioenergética Corporal. Antes de dormir ao invés de tomar os psicotrópicos deveria respirar profundamente: inspirar o ar utilizando-se do músculo diafragma e toda extensão do tórax e expirá-lo vagarosamente durante algumas repetições.

Ao final de alguns meses Rock havia terminado de pagar todas as dívidas e agora além de “dormir como uma pedra” encarava novos ciclos de vida menos prejudiciais à sua saúde. Livrou-se do ciclo das dívidas e dos psicotrópicos; Encontra-se no ciclo de compras somente à vista e também no ciclo da vigília, pois, agora sabe que sua estrutura de personalidade tende à traí-lo a qualquer momento.

Você é capaz de lembrar-se da história do “Senhor dos Anéis”?: “Mas aquele não é um anel comum, pois pode restaurar o poder de Sauron, o Sombrio Senhor de Mordor, e conseqüentemente lançar a Terra Média em escravidão. Para evitar isso, Frodo deve devolver o anel ao lugar onde foi forjado e assim destruí-lo.”

Mitanálises… Devolver o anel ao lugar onde foi forjado: No caso de Rock o anel foi forjado… F I M!

 

Afrodite

por: Roberto Lazaro Silveira

Na mitologia grega Afrodite – Αφροδίτη – era a deusa do amor, da beleza corporal e do sexo. Para os gregos, ela tinha uma forte influência no desenvolvimento e prazer sexual das pessoas. Era considerada também a deusa protetora das prostitutas na Grécia Antiga. Foi cultuada nas cidades de Esparta, Atenas e Corinto.

Nascimento e relacionamentos

De acordo com a mitologia, Afrodite nasceu na ilha de Chipre. Filha de Zeus (deus dos deuses) e Dione (deusa das ninfas), casou-se com Hefesto (deus do fogo). Porém, em função de suas vontades e desejos, possuiu vários amantes (homens mortais e outros deuses). Chegou a ter um filho, Enéias (importante herói da Guerra de Tróia) com o amante Anquises.

Principais filhos de Afrodite:

– Com Hermes (deus mensageiro) teve o filho Hermafrodito.
– Com Ares (deus da guerra) teve os filhos Eros (deus da paixão e do amor) e Anteros (deus da ordem).
– Com Apolo (deus da luz, da cura e das doenças) teve o filho Himeneu (deus do casamento).
– Com Dionísio (deus do prazer, das festas e do vinho) teve o filho Príapo (deus da fertilidade).

Na mitologia romana, Afrodite era chamada de Vênus.

Esta deusa inspirou vários artistas (pintores e escultores), principalmente, na época do Renascimento Cultural. Uma das obras mais conhecidas é “O nascimento de Vênus” do pintor renascentista italiano Sandro Botticelli (figura no topo do artigo).

Acima uma manifestação de Afrodite. Observe que “transmite o recado”, pois, como não há nada de novo abaixo do sol, então a condição arquetípica manifesta-se de forma complexa – não observamos arquétipos e sim complexos com núcleos arquetípicos – e este complexo veste-se com as roupas fornecidas pelo momento sócio-histórioco-cultural, observe “Afrodite” no paradigma Afro – Afro-Afrodite!

 

Mitología Nórdica

por: Roberto Lazaro Silveira

 

Seres Mitológicos

por: Roberto Lazaro Silveira

 

Conto de Fadas e Psicanálise

por: Roberto Lazaro Silveira

Gostaria de compartilhar com vocês esta importante leitura para aqueles que buscam o conhecimento sobre arquétipos e necessitam conhecer um pouco de psicanálise do Freud. O texto abaixo foi retirado do livro Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida, da autora Marilena Chauí, que foi impresso pela editora Brasiliense no ano de 1984, o trecho apresentado foi selecionado a partir da página 32 até a página 45. Boa leitura!

Poderíamos considerar que numa sociedade como a nossa, que dessacralizou a realidade e eliminou quase todos os ritos, os contos funcionam como espécie de “rito de passagem” antecipado. Isto é, não só auxiliam a criança a lidar com o presente, mas ainda a preparam para o que está por vir, a futura separação de seu mundo familiar e a entrada no universo dos adultos.

Do ponto de vista da repressão sexual, os contos são interessantes porque são ambíguos. Por um lado, possuem um aspecto lúdico e liberador ao deixarem vir á tona desejos, fantasias, manifestações da sexualidade infantil, oferecendo à criança recursos para lidar com eles no imaginário; por outro lado, possuem um aspecto pedagógico que reforça os padrões da repressão sexual vigente, uma vez que orientam a criança para desejos apresentados como permitidos ou lícitos, narram as punições a que estão sujeitos os transgressores e prescrevem o momento em que a sexualidade genital deve ser aceita, qual sua forma correta ou normal.

Reforçam, dessa maneira, inúmeros estereótipos da feminilidade e da masculinidade, ainda que, se tomarmos os contos em conjunto, os embaralhem bastante. Se a psicanálise estiver certa ao diferenciar fases da sexualidade infantil, podemos observar que a repressão atua nos contos seguindo essas fases: as crianças são punidas se muito gulosas (fase oral), se perdulárias ou avarentas (fase anal), se muito curiosas (fase fálica ou genital).

Em certo sentido, os contos operam com a divisão estabelecida por Freud, entre o princípio do prazer (excesso de gula, de avareza ou desperdício, de curiosidade) e o princípio de realidade (aprender a protelar o prazer, a discriminar os afetos e condutas, a moderar os impulsos). Para facilitar a exposição, vamos dividir os contos em dois grandes “tipos”: aqueles que asseguram à criança o retorno à casa e ao amor dos familiares, depois de aventuras em que se perdeu tanto por desobediência quanto por necessidade, e aqueles que lhe asseguram ser chegada a hora da partida, que isso é bom, desejável e definitivo.

Nos contos que designamos aqui como contos de retorno, a sexualidade aparece nas formas indiretas ou disfarçadas da genitalidade, que são apresentadas como ameaçadoras, precisando ser evitadas porque a criança ainda não está preparada para elas. Isto não significa que a criança seja assexuada, pelo contrário, mas que a sexualidade permitida ainda é oral ou anal. Em contrapartida, nos contos que aqui designamos como contos de partida, a sexualidade genital terá prioridade sobre as outras, com as quais vem misturada, e pode ser aceita depois que as personagens passarem por várias provas que atestem sua maturidade.

No Chapeuzinho Vermelho (que, na canção infantil, é dito “Chapeuzinho cor de fogo”, o fogo sendo um dos símbolos e uma das metáforas mais usados em nossa cultura para referir-se ao sexo), o lobo é mau, prepara-se para comer a menina ingênua que, muito novinha, o confunde com a vovó, precisando ser salva pelo caçador que, com um fuzil (na canção: “com tiro certo”), mata o animal agressor e a reconduz à casa da mamãe.

Há duas figuras masculinas antagônicas: o sedutor animalesco e perverso, que usa a boca (tanto para seduzir como para comer) e o salvador humano e bom, que usa o fuzil (tanto para caçar quanto para salvar). Há três figuras femininas: a mãe (ausente) que previne a filha dos perigos da floresta; a vovó (velha e doente) que nada pode fazer, e a menina (incauta) que se surpreende com o tamanho dos órgãos do lobo e, fascinada, cai em sua goela.

A sexualidade do lobo aparece não só como animalesca e destrutiva, mas também “infantilizada” ou oral, visto que pretende digerir a menina (o que poderia sugerir, de nossa parte, uma pequena reflexão sobre a gíria sexual brasileira no uso do verbo comer). O comer também aparece num outro conto de retorno, João e Maria. A curiosidade de João, depois acrescida pela gula diante da casa de confeitos, arrasta os irmãozinhos para a armadilha da bruxa (que é, na simbologia e mitologia da Europa medieval uma das figuras mais sexualizadas, possuída pelo demônio (o sexo), ou tendo feito um pacto com ele).

A astúcia salva as crianças quando João exibe o rabinho mole e fino de um camundongo no lugar do dedo grosso e duro (o pênis adulto), evitando a queda do menino no caldeirão fervente (outro símbolo europeu para o sexo feminino, tanto a vagina quanto o útero). Há tempo para que o pai surja e os reconduza à casa, depois de matar a bruxa. (A imagem do caldeirão fervente também aparece em O Casamento de Dona Baratinha, o noivo nele caindo, vítima da gula, não podendo consumar o casamento.)

Nos contos de partida, a adolescência é atravessada submetida a provações e provas até ser ultrapassada rumo ao amor e à vida nova. Nesses contos, a adolescência é um período de feitiço, encantamento, sortilégio que tanto podem ser castigos merecidos quanto imerecidos, mas que servem de refúgio ou de proteção para a passagem da infância à idade adulta. É um período de espera: Gata Borralheira na cozinha, Branca de Neve semimorta no caixão de vidro, Bela Adormecida em sono profundo, Pele-de-Burro sob o disfarce repelente. Heróis e heroínas se escondem, se disfarçam, adoecem, adormecem, são metamorfoseados (como os príncipes nos Três Cisnes, a princesa em A Moura Torta, o príncipe em A Bela e a Fera, etc.).

Em geral, as meninas adormecem ou viram animaizinhos frágeis (pomba, corça) e os meninos adoecem, viram animais repugnantes (freqüentemente, sapos, o sapo sendo um dos companheiros simbólicos principais das bruxas) ou viram pássaros (o pássaro sendo considerado um símbolo para o órgão sexual masculino). A expressão, muito usada antigamente, “esperar pelo príncipe encantado” ou “pela princesa encantada” não queria dizer apenas a espera por alguém muito bom e belo, mas também a necessidade de aguardar os que estão enfeitiçados porque ainda não chegou a hora do desencantamento.

Gata Borralheira vai ao baile (primeiros jogos amorosos, como a dança dos insetos), mas não pode ficar até o fim (a relação sexual) sob pena de perder os encantamentos antes da hora. Deve retornar à casa, deixando o príncipe doente (de desejo), e com o par de sapatinhos momentaneamente desfeito, ficando com um deles, que conserva escondido sob as roupas. Borralheira e o príncipe devem aguardar que os emissários do rei-pai a encontrem, calce os sapatos, completando o par. Sapatos que são presente de uma mulher boa e poderosa (fada) e que pertencem apenas à heroína, de nada adiantando os truques das filhas da madrasta (cortar artelhos, calcanhar) para deles se apossarem.

As filhas da madrasta querem sangrar antes da hora e sobretudo querem sangrar com o que não lhes pertence, de direito (relação sexual ilícita, repressivamente punida pelo conto). Branca de Neve, cujo corpo não foi violentado pelo fiel servidor (não lhe arrancou o coração, a virgindade, substituindo-o pelo de uma corça) será vítima da gula e da sedução da madrasta-bruxa, permanecendo imóvel num caixão de cristal (seus órgãos sexuais) com a maçã atravessada na garganta, sem poder engoli-la.

Além da simbologia religiosa em torno da tentação pelo fruto proibido (o sexo), o vermelho trazido pela bruxa liga-se também à simbologia medieval onde as bruxas fabricam filtros de amor usando esperma e sangue menstrual, bruxaria que indica não só a puberdade de Branca, mas também a necessidade de expeli-la para poder reviver. Despertará por um descuido dos anões vigilantes – a casinha na floresta, os pequenos seres trabalhadores que penetram em túneis escuros no fundo da terra (que na simbologia sexual é imagem da mãe fértil), um “Mestre”, um a ter sono permanente, outro a espirrar, outro não podendo falar, não foram proteção suficiente, a morte aparente tendo sido necessária para reter Branca. (Seria interessante observar a necrofilia do belo príncipe, pois pretende levar a morta em sua companhia.)

Bela Adormecida será vítima da curiosidade que a faz tocar num objeto proibido – o fuso, onde se fere (fluxo menstrual), mas sem ter culpa, visto que fora mantida na ignorância da maldição que sobre ela pesava. Sangrando antes da hora, adormece, devendo aguardar que um príncipe valente, enfrentando e vencendo provas, graças à espada mágica (também símbolo do órgão viril), venha salvá-la com um beijo. Em sua forma genital, o sexo aqui aparece de duas maneiras: prematuro e ferida mortal, no fuso; oportuno e vivificante, na espada.

De modo geral, heróis e heroínas são órfãos de pais (os heróis) ou de mãe (as heroínas), vítimas do ciúme de madrastas, padrastos ou irmãos e irmãs mais velhos. Essa armação tem uma finalidade. Graças a ela, preservam-se as imagens de pais, mães e irmãos bons (pai morto na guerra, mãe morta no parto, irmãos menores desamparados), enquanto a criança pode lidar livremente com as imagens más.

Há um desdobramento de cada membro da família em duas personagens, o que permite à criança realizar na fantasia a elaboração de uma experiência cotidiana e real, isto é, a da divisão de uma mesma pessoa em “boa” e “má”, e dos sentimentos de amor e ódio que também experimenta. Lutar contra padrastos, madrastas e seus filhos é mais fácil do que lutar com pai, mãe e irmãos.

Freqüentemente, os contos se estruturam de modo mais complexo. Em A Bela Adormecida, por exemplo, há várias figuras femininas superpostas: a mãe ausente; a fada má que maldiz a criança; a fada boa que substitui a morte pelo sono e promete um salvador; a velha fiandeira, desobediente, que conservou o fuso proibido; a menina curiosa e desprevenida que, andando por lugares desconhecidos e subindo por uma escada (símbolo da relação sexual) se fere e adormece, à espera da espada e do beijo.

A fada má pune o rei que a excluiu de um festa dedicada à fertilidade (o nascimento da princesa), a punição consistindo em decretar a morte da menina quando esta apresentar os sinais da fertilidade (maldição que simboliza o medo das meninas diante da menstruação e da alteração de seus corpos). A morte da menina decorre da curiosidade que a faz antecipar com um objeto errado (masturbação) a sexualidade.

A fada boa está encarregada de contrabalançar o equívoco (e o descuido masculino, que não suprimiu todos os fusos) colocando a menina na tranqüilidade sonolenta da espera e entregando a espada ao príncipe (que, portanto, recebe o objeto mágico de uma mulher, pois todos nascem de mulheres). O beijo final contrabalança o medo que a espada poderia provocar, pois é instrumento de guerra e morte (o beijo simboliza, em muitas culturas, não só amor e amizade, mas também um pacto ou uma aliança).

Na maioria dos contos, o pai é indiretamente responsável pela maldição ou pelas desventuras da filha. Mas em A Bela e a Fera o pai é diretamente responsável ao arrancar de um jardim que não lhe pertence, uma rosa branca, despertando a Fera. Há no roubo da flor a simbolização do desejo e do medo inconsciente das meninas de serem raptadas ou violentadas.

A figura masculina se divide: há o pai-bom e o homem-fera, divisão que obriga Bela a viver com o segundo para salvar o primeiro. Contudo, desejando rever o pai doente, Bela deixa que Fera, abandonada, também adoeça (de desejo). A imaturidade de Bela, seu medo da Fera, seu desejo de permanecer junto ao pai só são superados quando, pela piedade e pela sedução, retorna ao castelo da Fera, dedica-se a ela e, ao fazê-lo, quebra o encanto, surgindo o belo príncipe com quem viverá.

O conto se desenvolve como processo de amadurecimento da heroína e de constituição da imagem masculina através de seus desejos. Do pai à fera, da fera ao príncipe. Em Pele-de-Burro, o desejo incestuoso do pai é a mola do conto.

A primeira tentativa da filha para evitar o incesto fracassa: pede vestido feitos de Natureza (sol, mar e lua), mas a Natureza não é contrária ao incesto, o rei podendo perfeitamente conseguir os vestidos.

A princesa deve, então, fugir. Mas seu disfarce indica os efeitos do desejo incestuoso do rei: cobre-se numa pele de burro, animalizando-se. Num outro reino (que não o da Natureza), a princesa irá aos bailes da corte, mas, como a Gata Borralheira, não pode ficar até o fim para não correr o risco de ser descoberta.

Porém, o príncipe apaixonado ficará doente e o remédio virá no bolo feito pela princesa. Bolo que possui o mesmo sentido e o mesmo efeito que a espada mágica, porém com a marca do feminino: é no interior do bolo que se encontra o remédio salvador, o anel. Embora os contos reforcem estereótipos de feminilidade e masculinidade e preconceitos sobre homem e mulher, são ambíguos e ricos e por isso não são sexistas: a salvação pode ser trazida tanto pelo herói quanto pela heroína. As fadas, aliás, possuem um objeto mágico supremo, talismã dos talismãs: a vara de condão, sendo seres excepcionais porque reúnem atributos femininos e masculinos, sonho e fantasia de todas as crianças (e não só delas, evidentemente).

Em Os Três Cisnes, é a menina quem quebra o encantamento dos irmãos, tudo dependendo de sua força de vontade (ficar em absoluto silêncio durante sete anos) ou moderar o princípio de prazer, e de sua coragem e destreza para acertar as setas, no momento exato, nos corações dos três cisnes, matando-os para que vivam os irmãos. Ela é portadora de um objeto viril – o arco e flecha -, sabendo usá-lo.

Sua destreza é ímpar: deve usar, e usa, o arco tendo os olhos vendados (….. a venda nos olhos é símbolo medieval para a morte. Este conto, portanto, realiza uma verdadeira crítica da relação sexo-morte, pois morte dos cisnes é nascimento de sua virilidade, por obra de uma mulher. E o incesto, aqui, é óbvio). Além de não serem sexistas e de contornarem o incesto, os contos não condenam o sexo com animais: é o amor e o afeto pelos animais que permitirá desencantá-los.

Alguns psicanalistas consideram que as primeiras manifestações da sexualidade estão liadas ao que denominam escolha de objeto e objeto parcial. A mãe (ou quem faz o papel de mãe para a criança) seria o primeiro objeto escolhido e seus seios seriam o primeiro objeto parcial. Por outro lado, como a mãe não está permanentemente presente, acarinhando e alimentando a criança, esta desenvolve fantasias sobre o objeto parcial: ausente ou faltando, torna-se um mau objeto; presente e satisfatório, torna-se um bom objeto.

A criança desenvolve também fantasias de agressão e de ternura com relação a esses objetos, sobretudo a da perseguição, no caso do mau objeto. Assim, nos contos, frutas, plantas, flores e alimentos venenosos ou ardilosos seriam objetos parciais maus ou persecutórios, mas contrabalançados por bolos, filtros, poções, jóias que trazem saúde e quebram feitiços, sendo objetos parciais bons, com os quais a criança e os contos realizam a reparação do objeto escolhido, amado e odiado.

O objeto parcial persecutório mais perfeito, porém, é aquele que não é devorado pela criança, mas que ameaça devorá-la. Nos contos: os dragões, os lobos, os ogros, as tempestades, as florestas sombrias, os castelos cheios de armadilhas. E para contrabalançar tamanha perseguição e reparar o objeto amado, nos contos de retorno, adultos salvam as crianças da perseguição e, nos contos de partida, a sexualidade amadurecida e vencedora das fantasias persecutórias mais antigas aparece no próprio herói ou na heroína cujos objetos mágicos (oferecidos por um bom adulto) lhes permitem, sozinhos, vencer a perseguição. Nesse mesmo contexto, compreende-se que a fada tenha a vara e a princesa dos Três Cisnes, o arco.

É colocado em mãos femininas algo que poderia ser fonte de temor para as meninas. São raros os casos, nos contos de retorno, em que a criança consegue voltar à casa sozinha, sem auxílio de algum adulto, mesmo porque a finalidade do conto é mostrar o despreparo da criança para sair pelo mundo. A grande exceção é o Pequeno Polegar, criança em tudo excepcional.

Como seu nome indica, Pequeno Polegar é uma anomalia (e talvez por isso o entusiasmo das crianças por ele), o tamanho compensado pela inteligência fora do comum. As botas de sete léguas, que com astúcia consegue, além de serem capacidade mágica para vencer o espaço e o tempo (a pouca idade), são também meio de assegurar à criança que seus órgãos sexuais pequenos não exigem renúncia dos desejos, mas imaginação para satisfazê-los. É interessante observar que, se nos Três Cisnes a menina empunha o arco, aqui o menino entra num enorme e protetor “recipiente’: as botas. E se sai muito bem.

O Pequeno Polegar é um dos contos onde melhor aparecem tanto o medo que a criança tem da rejeição (ser morta pelos pais) quanto a necessidade de reparação, isto é, de recompor a bondade dos pais depois da fantasia de sua imensa maldade. Por isso mesmo as proezas maiores são feitas. Polegar substitui para si próprio e para os irmãozinhos o pai e a mãe por pais ideais: as botas acolhedoras e salvadoras do menino que não abandona os irmãos, os protege contra os perigos da floresta e contra o gigante, os traz de volta à casa com fortuna, garantindo a sobrevivência da família. Não há príncipes nem princesas, tudo depende da inteligência e imaginação da criança pobre e minúscula.

Há nos contos contínua intervenção de bons adultos, mas que não intervêm de modo casual ou arbitrário e sim de acordo com várias regras, entre as quais se destaca a escolha dos mais fracos (o caçula, o órfão, a vítima) e dos que têm senso de justiça, além da coragem. O uso dos talismãs também está submetido as regras, os transgressores sendo punidos (perda da potência do objeto mágico, retorno do objeto contra o usuário) ou protelada a chegada à meta (a seqüência de provas recomeçando ou tornando-se mais árdua).

Heróis e heroínas precisam demonstrar que são dignos do talismã (seja por suas qualidades anteriores à recepção do objeto, seja pelo uso que dele faz, seja pela obediência às regras de seu emprego). Em resumo: as condutas estão reguladas por normas e valores, a finalidade do conto sendo persuadir a criança de que tais normas são boas e verdadeiras e que o sofrimento decorre apenas de sua desobediência. É o compromisso do conto, situado entre o lúdico e a repressão.

Na maioria dos contos, o talismã é dom de um adulto para uma criança, mesmo que esta não o saiba. Há, porém, uma formidável exceção: João e o Pé de Feijão. Obtido numa sabida transação (que os adultos não entendem e castigam) o grãozinho de feijão, bom sêmen, plantado em boa terra, cresce durante uma única noite. Gigantesco caule, sobe, sobe, eleva-se até `s nuvens, rijo e duro, o menino podendo nele trepar.

Como era inevitável, João penetra no castelo do gigante malvado (figura masculina ameaçadora) que possui um segredo precioso, uma galinha que bota ovos de ouro (imagem feminina da fertilidade, guardada em segredo, fonte de riqueza: os que nascem). Dela se apodera João, fugindo pelo caule, perseguido pelo gigante e, para salvar-se, o menino corta o belo pé de feijão.

O conto procura lidar com um elemento repressivo complicado. Obtida a galinha chocadeira de riquezas por um furto (justo, pois o gigante é mau e a família, pobre), esse ato tem clara significação incestuosa e pode ser um risco para a vida da família e do menino, pois o gigante se põe a descer pela árvore, a mesma por onde o menino trepara. É preciso cortar o pé de feijão depois que o essencial foi conseguido, isto é, a fertilidade. O sexo cresce livremente – é como um elemento da natureza, um vegetal -, mas essa liberdade deve encontrar um limite e ser freada, cortada. O menino que subiu é o gigante mau que desce. E vem com fúria assassina.

Os contos de fadas, tais como os conhecemos, são resultado de muitas reelaborações na sociedade européia, fixados nos séculos XVIII e XIX, carregando as concepções desses séculos sobre a sexualidade (e sobre outras coisas também). Ora, é interessante observar que, no século XIV, ao lado desses contos, surge, na Inglaterra, um outro tipo de estória, em certos aspecto semelhante ao maravilhoso dos contos, mas com uma diferença fundamental: o mundo adulto não é apresentado com divisões e ambigüidades, bom e mau, difícil e desejável, mas como mau e indesejável.

Estamos pensando em Peter Pan e em Alice – o menino que recusou crescer, ficando na Terra do Nunca, e a menina cujo autor não desejou que ela crescesse, fazendo-a conhecer a luta mortal e absurda com a Rainha do Baralho num tabuleiro de xadrez. Muitos comentadores, de formação psicanalítica, afirmam que o medo de Peter Pan o faz preferir a imaturidade sexual, o homossexualismo e a masturbação (o pó de pirlimpimpim e o vôo), e que as “perversões” de Lewis Carrol (o autor de Alice) o fazia sentir atração sexual pelas meninas, não desejando que ficassem adultas.

Não pretendemos refutar nem concordar com esse comentadores. Gostaríamos apenas de lembrar que essas estórias foram imaginadas num período conhecido como o da “moral vitoriana”, quando a Inglaterra, passando pela Segunda revolução industrial, mantinha o controle capitalista sobre o mundo. A sociedade desse período é narrada e descrita por inúmeros autores como uma das sociedades mais repressivas da sexualidade. Assim sendo, podíamos considerar a recusa do mundo adulto por Peter Pan e por Alice, em vez de “anormal”, talvez muito saudável e lúcida.

A Terra do Nunca, apesar do Capitão Gancho, é perfeita, mas o País das Maravilhas é feito de ameaças e de frustrações. Num romance da escritora inglesa Virgínia Woolf, Orlando (estória de um homem-mulher que vive em dois períodos diferentes da história da Inglaterra), a romancista descreve o momento em que, adormecendo como rapaz no século XVII, a personagem desperta como mulher, em pleno século XIX: vê por toda parte casais com trajes cinza e negro, o céu é tenebroso e opressivo e a moça despertada sente uma dor inexplicável no dedo anular esquerdo (isto é, onde se coloca a aliança de casamento).

Eis a versão repressiva de Eros e Psique: dois seres, enclausurados num cubículo e em suas vestes, sem corpo e sem rosto, enlaçados pelas convenções. Encontro sem contato (as bocas não se beijam, beijam trapos) e sem intimidade, pois, no cubículo fechado e sob os panos que cobrem seus corpos e rostos, se descobre a presença da sociedade inteira, vigiando e controlando o pobre par.

Será Freud o primeiro a captar que Eros e Psique não são dois entes separados perpetuamente buscando um ao outro, mas que são um só e mesmo ser: Eros (o desejo) habita Psique (a alma). Como no poema de Fernando Pessoa, em que o príncipe destemido busca a princesa encantada para descobrir que ele era ela. Desejo de indivisão e de fusão perpétua (impossível), o laço que enlaça em terno e fundo abraço, é a sexualidade humana, perpetuamente reprimida.

 

Mitologia e Arquétipos

por: Roberto Lazaro Silveira

Podemos vislumbrar nas obras de Jung que os personagens mitológicos são fontes de compreensão para o entendimento dos processos humanos.

Segundo o livro de memórias de Jung, desde 1909, o mesmo sentiu necessidade do estudo da mitologia para poder compreender a simbologia de uma psicose latente (JUNG, 1964 – 2006).

Este fato levou-o a descobrir futuramente que os núcleos dos complexos são arquetípicos e desta forma imprescindíveis para a compreensão dos fenômenos psicológicos.

A teoria junguiana sobre os arquétipos inicia-se em 1912, quando relata a manifestação de imagens primordiais em pacientes e em sua auto-análise, cujas temáticas essenciais repetiam-se nos mitos de diversas culturas. Jung fora entusiasmado pelas idéias do historiador neoplatônico Friedrich Creuzer (1771-1858), como ele mesmo coloca: “O acaso me conduziu ao Simbolismo e Mitologia dos Povos Antigos, de Friedrich Creuzer, e esse livro me entusiasmou” (Jung, 1985, p.145).

É necessário ressaltar que esta teoria possui uma base biológica e empírica, logo, não se harmoniza ao espiritualismo de base mística, mas os pressupostos essenciais assemelham-se.

Muitos dos argumentos biológicos em Jung surgem como uma maneira de conferir aos seus conceitos uma roupagem mais aceitável ao empirismo dominante, não sendo premissas necessárias para as suas teorias.

Referências
JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Rio de Janeiro: Vozes, 1985.
______. Memória Sonhos e Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

 

Mitanálise e os Símbolos Atuais

por: Roberto Lazaro Silveira


O Chupa-cabra é uma suposta criatura responsável por ataques sistemáticos a animais rurais em regiões da América, como Porto Rico, Flórida, Nicarágua, Chile, México e Brasil. O nome da criatura deve-se à descoberta de várias cabras mortas em Porto Rico com marcas de dentadas no pescoço e o seu sangue alegadamente drenado.

Uma das primeiras notícias que se teve no Brasil sobre esse misterioso animal ocorreu em Junho de 1997. E provocou uma onda de pânico e terror na região de Campinas, interior de São Paulo. Moradores de dez cidades da região afirmavam que o animal apelidado de Chupa-cabra “arranca o cérebro, vísceras, olhos e coração das vítimas com precisão cirúrgica.”

Grande parte dos mitos oriundos do passado, assim como a moda, “se constroem e se renovam a cada dia no imaginário contemporâneo” (BARBOSA, 2001: 121).

Um vestido é sempre um vestido, no entanto aquelas armações de madeira, hoje antigas, para realçar as nádegas sairam de moda, mas o vestido não e no lugar delas entrou o silicone, entrou mesmo.

A mitanálise através de símbolos atuais revela um padrão primitivo de comportamento, que satisfaz aos anseios religiosos, aspirações morais, a pressões e a imperativos de ordem social, e mesmo a exigências práticas. Eliade (2007).

Articula Eliade (1990): “o símbolo revela certos aspectos da realidade – os mais profundos – que desafia qualquer outro meio de conhecimento” (p.8). Os sonhos elucidam questões vinculadas ao caráter individual do sujeito que o produz. O conhecimento extraído do mito se aproxima de um sentido mais profundo e constante da psique humana. Jung (1964).

Fonte:
BARBOSA, Wallace de Deus. “Mitopoiesis Contemporâneas: O Chupa-Cabras”. In: Poiesis: Estudos de Ciência da Arte. Niterói: UFF, ano III, 2001.
JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
ELIADE, Mircea. Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2007.
______. O poder do mito. São Paulo: Palas Atena, 1990.

 

Leitura Mítica

por: Roberto Lazaro Silveira

Vamos ler uma das histórias sobre um mito amazônico chamado Cobra Norato.

COBRA NORATO

Andrade (2003): Uma bela moça indígena chamada Zelina estava na roça trabalhando e quando foi para a beira do rio beber água, sentiu uma forte dor de barriga e começou a passar mal e de joelhos na beira do rio deu à luz a um casal de gêmeos filhos do Cobra Grande, pois, a moça desobedeceu ás ordens do pajé de não se aproximar das águas após o entardecer para não engravidar-se do mesmo. O velho pajé curador da tribo, como punição, mandou que lançasse os irmãos ao rio e lá os gêmeos fossem criados como cobras, sendo um macho e uma fêmea, o macho foi chamado de Norato e a fêmea Maria Caninana, o tempo foi passando e as duas cobras foram crescendo, Norato era de boa índole e Maria Caninana era uma cobra má, pois, vivia derrubando as embarcações, quando visitavam sua mãe Zelina, a mesma só tinha olhos e gostava das reinações de sua filha. Norato que era bom moço, encantado em uma cobra, nunca aprovou as maldades de sua irmã Maria Caninana e certo dia matou sua irmã, pois já não agüentava ver suas maldades, algumas noites ele deixava a sua pele e casca de cobra à beira do rio e pedia a sua mãe que o desencantasse, mas ela não tinha coragem e antes que o dia amanhecesse, antes do galo cantar tinha que voltar para o rio e voltar a ser cobra. Para quebrar o encanto de Norato era preciso que alguém de tamanha coragem colocasse uma gota de leite em sua boca e um corte na cauda para sair o sangue que desencantaria o moço tão belo de uma cobra tão feia. Norato era visto nos bailes onde dançava muito, mas antes de clarear o dia desaparecia e ninguém tinha coragem de desencantar o belo rapaz, pois ninguém queria se arriscar, cansado de tanto andar e não encontrar resolveu ir para a cidade de Óbidos e lá encontrou um corajoso soldado que levou o leite na boca da cobra e com o sabre cortou-lhe a cauda para o sangue jorrar e Norato transformou-se em um elegante e belo rapaz, agora Honorato – do latim homem honrado – deixando as águas do rio para levar uma vida igual do homem da cidade, sem transformar-se novamente em peixe. Honorato arranjou emprego como piloto de barco porque conhecia muito bem o leito dos rios da região. Ele gostava muito de conversar com as pessoas, no entanto, sentia muita saudade dos tempos de quando era cobra também (p.32).

Este mito é de origem amazônica e para saborear esse gostinho nacional, é preciso, entretanto, aproximar-se das lendas brasileiras bem como das dificuldades de estilo comumente encontradas nos contos populares. O leitor há que se acostumar com este articular especial, eivado de expressões inesperadas, marcado por soluções lingüísticas particulares, enfim, carregado de exigências dirigidas a um leitor-cúmplice, ou seja, um leitor que aceite desafios, que sonhe com suas origens. Observe os dez mandamentos para se ler mito de Joseph Campbell (1993), veja,

  1. Leia mitos com um olhar de mistério: maravilhe-se com o significado, maravilhe-se com a origem.
  2. Leia mitos no tempo presente: a Eternidade é agora.
  3. Leia mitos no plural: os Deuses e Deusas de todas as mitologias vivem dentro de nós.
  4. Todo mito interessante atrai, repele, ou ambos. Todos esses sentimentos são seus para explorar.
  5. Olhe, ouça e sinta a forma; é para isso que os mitos existem.
  6. O sagrado existe também no profano.
  7. Mitos podem ser gerados em qualquer lugar, a qualquer tempo, por qualquer coisa: o Buda vive também no chip de computador.
  8. Conheça sua tribo! Os mitos nunca surgem no vácuo; eles são o tecido de ligação do corpo social sinergisticamente relacionando mitos pessoais (sonhos) e rituais (mitos públicos).
  9. Os mitos significam: a Terra é nossa casa e a humanidade é nossa família.
  10. A imaginação desperta. Os mitos são para a vida. (p.34)

 

Logo, a psicologia não pode ser eficaz como ciência positiva, pois, desta maneira seria incapaz de viver os mitos, de viajar no tempo e maravilhar-se com as origens. Por isto a psicologia como estudo da Psiquê – que significa alma e arremete ao mito da Psiquê* – reverencia a ciência negativa adotada por Freud pela sua incapacidade de compreender fenômenos sem uma causa que poderia ser comprovada em laboratório, assim, deixando de explicar, e aderindo-se a psicologia, divulgou a mesma e apresentou seus estudos sobre consciente e inconsciente, mitos e arquétipos que posteriormente seriam melhor compreendidos e complementados por Jung.

*Uma das narrações sobre o mito da Psiquê encontra-se no livro O Asno de Ouro de Apuleio, que a cita como uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Tão bela que despertou a fúria de Afrodite, deusa da beleza e do amor, mãe de Eros – pois os homens deixavam de frequentar seus templos para adorar uma simples mortal.

A deusa mandou seu filho atingir Psiquê com suas flechas, fazendo-a se apaixonar pelo ser mais monstruoso existente. Mas, ao contrário do esperado, Eros acaba se apaixonando pela moça – acredita-se que tenha sido espetado acidentalmente por uma de suas próprias setas. A trama continua e atualiza-se vestindo as roupagens impostas pelo momento sócio-histórico, pois, trata-se de arquétipos que surgem de forma genuína nos sonhos, mitos e contos de fadas. Vamos viver os mitos?

Referências:
ANDRADE, Paulo de Tarso. Conhecendo nosso Folclore. São Paulo: Kanga, 2003.
CAMPBELL, Joseph. Myths to Live By. London-UK: Penguin, 1993.