RSS
 

Ego

por: Roberto Lazaro Silveira

Para Freud o ego é uma das três estruturas do modelo triádico do aparelho psíquico – id, ego, superego. O ego desenvolve-se a partir do id com o objetivo de permitir que seus impulsos sejam eficientes, ou seja, levando em conta o mundo externo: é o chamado princípio da realidade.

É esse princípio que introduz a razão, o planejamento e a espera no comportamento humano. A satisfação das pulsões é retardada até o momento em que a realidade permita satisfazê-las com um máximo de prazer e um mínimo de consequências negativas.

A principal função do ego para Freud é buscar uma harmonização inicialmente entre os desejos do id e a realidade e, posteriormente, entre esses e as exigências do superego.

Para Carl Gustav Jung, o ego sendo um arquétipo apresenta-se em forma de um complexo; o “complexo do ego”. Diz ele sobre o ego: “É um dado complexo formado primeiramente por uma percepção geral de nosso corpo e existência e, a seguir, pelos registros de nossa memória”. Durante nosso amadurecimento ou processo de individuação o ego estabece um eixo em parceria com outro arquétipo o Self – sí mesmo.

Inicialmente o Ego está fundido com o Self, mas deve se diferenciar dele. Jung descreve uma interdependência dos dois: o Self, que possui uma visão mais holista, é supremo. A função do Ego, porém, é confrontar ou satisfazer, conforme o caso, às exigências dessa supremacia. O confronto entre o Ego e o Self foi identificado por Jung como característico da segunda metade da vida.

Diferentemente de Freud, Jung entendeu que o inconsciente não é estático e rígido formado pelos conteúdos que são reprimidos pelo ego. Ao contrário, o inconsciente é dinâmico, produz conteúdos, reagrupa os já existentes e trabalha numa relação compensatória e complementar com o consciente.  No inconsciente encontram-se, em movimento, conteúdos pessoais, adquiridos durante a vida e mais as produções do próprio inconsciente. Jung classificou o inconsciente em Inconsciente Pessoal (ou Individual) e Inconsciente Coletivo. 

O  Inconsciente Pessoal ou Individual é aquela camada mais superficial de conteúdos, cujo marco divisório com o consciente não é tão rígido.  É uma camada de conteúdos que se acha contígua ao consciente.  Estes conteúdos subjazem no inconsciente por não possuírem carga energética suficiente para emergir na consciência. 

Correspondem àqueles aspectos que em algum momento do desenvolvimento da personalidade não foram compatíveis com as tendências da consciência e foram, portanto reprimidas.  Também estão, no inconsciente pessoal, percepções subliminares, ou seja, aquelas que foram captadas pelos nossos sentidos de forma subliminar, que nem nos demos conta de termos contato com o fato em si. 

Conteúdos da memória que não necessitam estar presentes constantemente na consciência estão presentes no inconsciente pessoal. Todos estes conteúdos formam no Inconsciente Pessoal um grande banco de dados que poderão surgir na consciência a qualquer momento. Outros importantes conteúdos estão no inconsciente pessoal; são os complexos. 

O Complexo de Ego então, para Jung encontra-se no inconsciente pessoal, o núcleo deste complexo assim como de todos os demais é arquetípico, ou seja, surge do inconsciente coletivo. Para Jung existem tantos arquétipos quantas as situações típicas da vida.

O Ego também é visto por Jung como resultante do choque entre as limitações físicas e corporais da criança e a realidade ambiente. A frustração ajuda a formar ‘ilhotas’ de consciência que se juntam ao Ego. O Ego, assevera Jung, adquire sua plena existência durante o terceiro ou quarto ano. Psicanalistas e psicólogos analíticos hoje concordam em que ao menos um elemento de organização perceptiva está presente desde o nascimento, e em que, antes do final do primeiro ano de vida, uma estrutura de Ego relativamente sofisticada já se encontra atuando. “Ego é ‘alguém’ que começa a dar início a sua jornada heróica em busca da totalidade do Self, em busca da meta do Processo de Individuação. Isto é tornar-se Indivíduo.”

A individuação leva, pois, a uma valorização natural das normas coletivas; mas se a orientação vital for exclusivamente coletiva, a norma é supérflua, acabando-se a própria moralidade. Quanto maior a regulamentação coletiva do homem, maior sua imoralidade individual. A individuação coincide com o desenvolvimento da consciência que sai de um estado primitivo de identidade(v). Significa um alargamento da esfera da consciência e da vida psicológica consciente.”

Jung lembra que o mérito da observação de que os arquétipos existem não pertence a ele e sim a PLATÃO, com seu pensamento “de que a idéia é preexistente e supra-ordenada aos fenômenos em geral.”

Outros pensadores como ADOLF Bastian, evidenciam a ocorrência de certas “idéias primordiais…” Hermam USENER que reconhece “a pré-formação inconsciente na figura de um pensamento inconsciente.” Salomão em seu livro bíblico Eclesiastes afirma que não há nada de novo debaixo do sol.

A contribuição de Jung se dá, entretanto, nas provas obtidas por ele, que os arquétipos existem e aparecem sem influência de captação externa. De acordo com Jung esta constatação “significa nada menos do que a presença, em cada psique, de disposições vivas inconscientes, e, nem por isso menos ativas, de formas ou idéias em sentido platônico que instintivamente pré-formam e influenciam seu pensar, sentir e agir.”

Alguns arquétipos foram amplamente enfatizados por Jung, pois permeiam o desenvolvimento da personalidade e invariavelmente estão bem próximo de nós, no nosso dia-a-dia e são mobilizados, pela psique, tão logo surja uma situação típica. Alguns arquétipos: Anima, Animus, Ego, Velho Sábio, Self, Persona, Grande Mãe.

Acredito que o ego então possue a função de intermediador ou negociador entre o Self e os demais arquétipos, o resultado destas negociações quendo bem sucedidas resultam em nosso amadurecimento ou nossa individuação. Caso ocorra um impasse entre as constelações arquetípicas, ou seja, um complexo exige muita energia psiquica, o eixo ego self irá moderar mobilizando um arquétipo oposto para gerar equilíbrio – Luta entre Anjos e Demônios.

Por exemplo podemos citar o caso do complexo que se dá em torno da persona. Este complexo poderá mobilizar energia suficiente para o eixo Ego-Self convocar a Anima no caso do Homem, esta quando em estado inconsciente pode fazer com que o homem, numa possessão extrema, tenha comportamento tipicamente feminino, como alterações repentinas de humor, falta de controle emocional.

Quem nunca viu o chefe irritado tando um ataque destes! Na verdade o seu psiquismo está contrabalanceando a persona que o mesmo utiliza para "manter o respeito" no trabalho. Em seu aspecto positivo a anima, quando reconhecida e integrada à consciência, servirá como guia e despertará, no homem o desejo de união e de vínculo com o feminino e com a vida.  A anima será a “mensageira do inconsciente” tal como o deus Hermes da mitologia Grega.

O arquétipo da Sombra poderá também neste caso ocupar um espaço nesta constelação formada por Ego-Sel e Persona desencadeando seu complexo para atingir a homeostase psiquica atuando frente ao mesmo gênero da pessoa.

A sombra apresenta-se como um poderoso arquétipo, já que é a fonte de tudo o que existe de melhor e de pior no ser humano. Como todo e qualquer elemento psíquico, a sombra possui aspectos positivos e negativos para o desenvolvimento da personalidade. Vejamos um líder militar que para exercer suas funções tem que formar uma persona que não permite demostrar "fraquezas" – Então a Persona a ser constituída necessitará que o Eixo Ego-Self deposite na Sombra as características boas Obs: Sombra é o aspecto desconhecido não apenas o que é sombrio, muitas vezes as virtudes de um homem estão na sombra.

Um erro comum é exemplificar a Sombra através da história do Dr. Jack and Ms. Ride – Isto é um caso de dupla personalidade meus caros leitores. O Dr. Jack possue sua sombra e o Ms. Ride também possue uma, ou seja, o Ride não é nem nunca foi a Sombra do Jack. Acredito que em casos como estes de dupla personalidade, o ego é suprimido porque não conseguiu interagir-se com o Self de forma a equilibrar as constelações arquetípicas através de mecanismos como Persona x Sombra x Anima ou Animus. O processo de individuação é particionado, gera-se uma nova persona assim como uma nova constelação arquetípica.

Cada personalidade funciona como uma unidade totalmente distinta, integrada com seus conteúdos, padrões de comportamentos e relacionamentos sociais. A transição de uma personalidade para outra ocorre de forma repentina e inesperada, fazendo com que o indivíduo e as pessoas que convivem com ele percebam a diferença de postura, de trato e de atitudes pela mudança brusca destas funções.

O contato com a sombra é um grande passo em direção á individuação. A sombra, quando trabalha em harmonia com o ego, deixa a vida mais produtiva e criativa. Jung mergulhava em seu próprio inconsciente e trazia à luz, aspectos que o ajudavam a entender o seu mundo e de seus pacientes.  Muitas vezes observou, nos sonhos e fantasias dos pacientes e nas suas próprias fantasias, que os temas eram recorrentes, cujas diferenças ficavam a cargo das experiências individuais de cada um, mas o cerne do tema era o mesmo. 

Referências:
JUNG, C.G., Memórias, Sonhos e Reflexões. 22ª ed. Rio de Janeiro. N. Fronteira. 2002;
JUNG, C.G., O Eu e o Inconsciente. 13ª ed. Petrópolis. Vozes. 2000;
JUNG, C.G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 3ª ed. Petrópolis. Vozes. 2003;
JUNG, C.G., Psicologia do Inconsciente. 15ª ed. Petrópolis. Vozes. 2004;
JUNG, C.G., Tipos Psicológicos. Petrópolis. Vozes. 1991.

 

Faça seu comentário