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Leitura Mítica

por: Roberto Lazaro Silveira

Vamos ler uma das histórias sobre um mito amazônico chamado Cobra Norato.

COBRA NORATO

Andrade (2003): Uma bela moça indígena chamada Zelina estava na roça trabalhando e quando foi para a beira do rio beber água, sentiu uma forte dor de barriga e começou a passar mal e de joelhos na beira do rio deu à luz a um casal de gêmeos filhos do Cobra Grande, pois, a moça desobedeceu ás ordens do pajé de não se aproximar das águas após o entardecer para não engravidar-se do mesmo. O velho pajé curador da tribo, como punição, mandou que lançasse os irmãos ao rio e lá os gêmeos fossem criados como cobras, sendo um macho e uma fêmea, o macho foi chamado de Norato e a fêmea Maria Caninana, o tempo foi passando e as duas cobras foram crescendo, Norato era de boa índole e Maria Caninana era uma cobra má, pois, vivia derrubando as embarcações, quando visitavam sua mãe Zelina, a mesma só tinha olhos e gostava das reinações de sua filha. Norato que era bom moço, encantado em uma cobra, nunca aprovou as maldades de sua irmã Maria Caninana e certo dia matou sua irmã, pois já não agüentava ver suas maldades, algumas noites ele deixava a sua pele e casca de cobra à beira do rio e pedia a sua mãe que o desencantasse, mas ela não tinha coragem e antes que o dia amanhecesse, antes do galo cantar tinha que voltar para o rio e voltar a ser cobra. Para quebrar o encanto de Norato era preciso que alguém de tamanha coragem colocasse uma gota de leite em sua boca e um corte na cauda para sair o sangue que desencantaria o moço tão belo de uma cobra tão feia. Norato era visto nos bailes onde dançava muito, mas antes de clarear o dia desaparecia e ninguém tinha coragem de desencantar o belo rapaz, pois ninguém queria se arriscar, cansado de tanto andar e não encontrar resolveu ir para a cidade de Óbidos e lá encontrou um corajoso soldado que levou o leite na boca da cobra e com o sabre cortou-lhe a cauda para o sangue jorrar e Norato transformou-se em um elegante e belo rapaz, agora Honorato – do latim homem honrado – deixando as águas do rio para levar uma vida igual do homem da cidade, sem transformar-se novamente em peixe. Honorato arranjou emprego como piloto de barco porque conhecia muito bem o leito dos rios da região. Ele gostava muito de conversar com as pessoas, no entanto, sentia muita saudade dos tempos de quando era cobra também (p.32).

Este mito é de origem amazônica e para saborear esse gostinho nacional, é preciso, entretanto, aproximar-se das lendas brasileiras bem como das dificuldades de estilo comumente encontradas nos contos populares. O leitor há que se acostumar com este articular especial, eivado de expressões inesperadas, marcado por soluções lingüísticas particulares, enfim, carregado de exigências dirigidas a um leitor-cúmplice, ou seja, um leitor que aceite desafios, que sonhe com suas origens. Observe os dez mandamentos para se ler mito de Joseph Campbell (1993), veja,

  1. Leia mitos com um olhar de mistério: maravilhe-se com o significado, maravilhe-se com a origem.
  2. Leia mitos no tempo presente: a Eternidade é agora.
  3. Leia mitos no plural: os Deuses e Deusas de todas as mitologias vivem dentro de nós.
  4. Todo mito interessante atrai, repele, ou ambos. Todos esses sentimentos são seus para explorar.
  5. Olhe, ouça e sinta a forma; é para isso que os mitos existem.
  6. O sagrado existe também no profano.
  7. Mitos podem ser gerados em qualquer lugar, a qualquer tempo, por qualquer coisa: o Buda vive também no chip de computador.
  8. Conheça sua tribo! Os mitos nunca surgem no vácuo; eles são o tecido de ligação do corpo social sinergisticamente relacionando mitos pessoais (sonhos) e rituais (mitos públicos).
  9. Os mitos significam: a Terra é nossa casa e a humanidade é nossa família.
  10. A imaginação desperta. Os mitos são para a vida. (p.34)

 

Logo, a psicologia não pode ser eficaz como ciência positiva, pois, desta maneira seria incapaz de viver os mitos, de viajar no tempo e maravilhar-se com as origens. Por isto a psicologia como estudo da Psiquê – que significa alma e arremete ao mito da Psiquê* – reverencia a ciência negativa adotada por Freud pela sua incapacidade de compreender fenômenos sem uma causa que poderia ser comprovada em laboratório, assim, deixando de explicar, e aderindo-se a psicologia, divulgou a mesma e apresentou seus estudos sobre consciente e inconsciente, mitos e arquétipos que posteriormente seriam melhor compreendidos e complementados por Jung.

*Uma das narrações sobre o mito da Psiquê encontra-se no livro O Asno de Ouro de Apuleio, que a cita como uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Tão bela que despertou a fúria de Afrodite, deusa da beleza e do amor, mãe de Eros – pois os homens deixavam de frequentar seus templos para adorar uma simples mortal.

A deusa mandou seu filho atingir Psiquê com suas flechas, fazendo-a se apaixonar pelo ser mais monstruoso existente. Mas, ao contrário do esperado, Eros acaba se apaixonando pela moça – acredita-se que tenha sido espetado acidentalmente por uma de suas próprias setas. A trama continua e atualiza-se vestindo as roupagens impostas pelo momento sócio-histórico, pois, trata-se de arquétipos que surgem de forma genuína nos sonhos, mitos e contos de fadas. Vamos viver os mitos?

Referências:
ANDRADE, Paulo de Tarso. Conhecendo nosso Folclore. São Paulo: Kanga, 2003.
CAMPBELL, Joseph. Myths to Live By. London-UK: Penguin, 1993.

 

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